PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Desordem e retrocesso (*)

desordem_e_retrocesso_alex_gozblau

No outro dia apanhei uma conversa entre dois velhotes. “O que é que achas que vai acontecer?” perguntava um. “Uma guerra”, dizia o outro, “É melhor contarmos com isso.”

“Ora, quero lá saber”, dizia o primeiro. “Quando essa guerra começar já eu não devo estar cá.”.

Lembrei-me dessa conversa quando ontem vi durante um longo momento o desfile dos parlamentares brasileiros que subiram ao palanque de voto da Câmara dos Deputados, no Palácio do Congresso Nacional, em Brasília, para fazerem, um a um, a sua declaração de voto a favor ou contra a impugnação do Governo democraticamente eleito de Dilma Rousseff.

A maioria anunciou ser o seu voto no “sim” feito em nome de Deus e/ou das suas famílias directas: pais, filhos, netos, noras e genros até, cujos nomes próprios muitos enunciaram ali em público, na Câmara dos Deputados do Brasil e em directo para o Mundo.

O que isso nos diz sobre a representação que fazem do combate político e as motivações que os levaram para a política – isto é, o que nos diz sobre os seus interesses pequeninos, sobre a sua vaidade totalmente ridícula e sobre o seu egoísmo totalmente deprimente – é o bastante para nos fornecer uma visão de conjunto não apenas da estupidez humana, como também do ponto atingido por essa estupidez actualmente no Brasil.

Nenhuma perspectiva de longo termo (necessariamente mais larga – para dizer duradoura, mas também para dizer mais humanamente interessante – do que a duração das suas existências individuais), sentido algum da marcha da História, bem como, claro, cela va de soi, do lugar sem História de cada um (bem como dos filhos, noras e tal) no devir cósmico do universo.

E foi assim que, em nome de uma construção humanamente fantasiosa e sem pingo de elevação política, a maioria dos parlamentares brasileiros votou a favor da impugnação do Governo federal democraticamente reeleito em 2014. Em nome de Deus, que tem as costas largas que se conhecem, mas também dos pais, dos filhos, dos netos, das noras e dos genros, que de modo algum eram para ali chamados. Nem mesmo se falando do futuro (era esse impulso nobre que procuravam em primeiro lugar, claro) e nomeando para o efeito os netos.

É que a política, a política a sério, que é a única que me interessa, não deve servir para servir classes particulares de cidadãos em determinados momentos particulares. Nem mesmo quando é feita em nome de quem ainda não nasceu. E muito menos quando age contra os cidadãos mais fracos (os mais pobres – que no Brasil permanecem a maioria -, os menos aptos para aguentar a depredação neoliberal, os mais velhos, as minorias, etc.) que ainda estão vivos.

Nenhuma dessas perspectivas e, ainda por cima, um clima de vingança anti-comunista primária que ficou bem patente nos excessos discursivos (e até mesmo emotivos) da maioria dos deputados que tomou ontem a palavra no Palácio do Congresso Nacional para forçar umas eleições antecipadas e anti-democráticas.

Um fenómeno que muito deve ao impeachment mediático que a Rede Globo (em Portugal representada pela SIC) tem vindo a fazer ao PT e ao Governo de Dilma, contribuindo decisivamente para a vitória do neoliberalismo sobre o PTismo.

(*) É também o título que Alex Gozblau deu à imagem que aqui se reproduz
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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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