PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

A indiferença

«O Estado tem de tomar conta daqueles que nunca tiveram –
ou já não têm –
o direito de viver no Estado,
e o Estado deve servir-se da força deles enquanto ela dura
para o bem do Estado.
Devem ser alimentados, abrigados, e tratados de maneira
a que sejam utilizados tanto quanto possível
ao menor custo possível.
Obtenham tanto trabalho quanto possível dos jovens e dos fortes
nos campos de concentração –
ou em fábricas ou no campo –
e dêem o menos possível
em roupa e comida.
Deixem os que não conseguem trabalhar rápido
ou que não querem trabalhar,
enforcados
e a baloiçar
para que os outros os vejam.»

Holocausto, Charles Reznikoff

 

©ALIPIOPADILHA_87A4910
(c) Alípio Padilha

Se a preguiça, dizem, é a mãe de todos os pecados – o maior, de que em certa medida decorrem todos os outros, nenhum sendo verdadeiramente capaz de lhe fazer sombra em capacidade para a ruindade total, na paisagem humana sem pingo de lisura virtuosa onde se exercitam os pecadores – a ignorância é pior mãe ainda, pois dela decorre a tragédia maior que constitui a indiferença.

A ignorância explica não apenas os fenómenos de desumanidade a que actualmente dedicamos espantosa indiferença. Uma luta de hoje transforma-se num ápice (à velocidade vertiginosa com que o vazio nos adormece) numa irrelevância, isto é, numa indiferença. O chamado ‘drama dos refugiados’ é um drama deles, coitados, que estão lá longe e que são pobres.

Quase tão pobres como nós, apressamo-nos a pensar com abjecta auto-complacência por tudo o que não fizemos para impedir que elites de burocratas bem-estabelecidos na vida e instituições não-eleitas (graças, também, à ignorância dos que julgam fazer melhor não votando) tomassem as rédeas do chamado ‘projecto europeu’. Tudo isto pensamos e dizemos sem grandes estados de alma. O horror banaliza-se com espantosa facilidade.

Toda a gente sabe que o Holocausto constituiu o paradigma maior disto que digo. Mas a infinita capacidade humana para a indiferença torna-o hoje especialmente relevante. Foi certamente o que pensou o encenador Francis Seleck, quando decidiu construir com 13 jovens actores uma leitura encenada de Holocausto, o longo poema que Charles Reznikoff (1894–1976) publicou em 1975.

Escrito com recurso, entre outros, a materiais documentais e transcrições do arquivo público norte-americano relativo aos julgamentos de Nuremberga, Holocausto foi ele próprio construído à maneira de um documento. Um poema documental que transformou relatórios e relatos testemunhais em poesia.

Uma poesia limpa de quase tudo o que habitualmente define a poesia – com excepção do olhar do poeta, que foi capaz de unir, fazendo escolhas, as pontas soltas das realidades paralelas que constituíram as acções insuperavelmente crueis dos nazis e a (sobre)vida dos judeus, dessa forma grafando imagens de inexcedível força. A fazer assim, Reznikoff deixou aos leitores de Holocausto as emoções próprias (individuais) do confronto com a realidade crua.

A encenação deste espectáculo faz justiça a essa parcimónia de recursos. Nada está a mais. Os jovens actores formam alternadamente grupos de judeus a abater e grupos de nazis, e depois chegam-se à frente, um a um, por vezes dois, para dizer partes do que Reznikoff escreveu. Sombria, a luz escasseia, como tudo o resto – necessariamente incluído o entendimento do que aconteceu durante esses anos no Mundo lindo dos homens feios.

Mas a encenação deste espectáculo tem pelo menos uma qualidade mais: a de ter dado a tantos jovens actores portugueses a oportunidade de contacto com um texto cuja importância é por demais evidente. O valor reside não tanto no facto de serem portugueses (embora a circunstância não seja despicienda, atendendo justamente à ignorância endémica que atinge o povo português) mas no facto de serem jovens.

Que sejam eles, que têm todos vinte e poucos anos, a dizer aquelas palavras, a contar aquelas coisas horrorosas, proporciona um contraste teatralmente muito interessante. Uma parte da emoção que pode sentir um espectador advém precisamente da juventude dos actores de Holocausto. A sua vitalidade, anseios, sonhos, transforma-se na vitalidade, nos anseios e nos sonhos das vítimas – homens, mulheres e crianças – que morreram às mãos dos nazis. Muitos tinham a idade dos actores da Cena Múltipla.

Holocausto, numa tradução de João Pedro Mamede e Francis Seleck, pela Cena Múltipla (uma formação de Almada), estreou no espaço dos Artistas Unidos, à Rua da Escola Politécnica, em Lisboa, na passada quinta-feira, dia 31 de Março, e esteve apenas em cena até Sábado, dia 2 de Abril. O espectáculo merece evidentemente uma carreira à altura da sua pertinência e qualidade.

Seria muito bom que fosse a Almada, de onde é a maior parte dos jovens actores. Melhor ainda seria que pudesse habitar alguns outros espaços do País onde cabe o teatro, a poesia, e também públicos ávidos de espectáculos significantes. Incluídas as salas – tantas vezes vazias ou usadas para o entretenimento de adormecer as consciências e os anseios – da rede nacional de teatros.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 4 de Abril de 2016 by in Cultura, Europa, teatro and tagged , , , , , , .

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