PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Ainda há uma revista que se pode ler

 

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Até há cerca de quinze anos, ainda consumia muita informação em papel. Diários pouco, desportivos nunca, mas semanários, entre jornais e revistas, comprava muitos. Para além, naturalmente, de um ou outro mensário. Cinco anos depois, já só os comprava em viagem, nem tanto pelo prazer da leitura, mas apenas como droga de substituição para a minha incorrigível dependência de informação.

É claro que, entretanto, o cabo se vulgarizou e a net se democratizou ainda mais. Há informação espalhada por todo o lado. Basta separar o trigo do joio. Na net a informação é tanta que se transformou mesmo num Data Smog, como diria David Schenk (Harper Collins, 1997). E é preciso ter em conta que nem toda a gente nasce com faróis de nevoeiro incorporados.

A televisão ainda é pior. Estatisticamente, na época da Páscoa o telejornal da hora do almoço (para efeitos da amostra, qualquer generalista serve) tem o seguinte alinhamento: abre com os jogos do Benfica; ou da selecção; ou com a inauguração da cidade do futebol; ou com um tiroteio entre duas tribos de ciganos e a tribo dos polícias; ou com um acidente de emigrantes explorados mesmo em viagem para as berças; ou com mais uma notícia da semana anterior sobre o terrorismo islâmico. Ao fim de quinze/vinte minutos, passa para o folar regional gourmet e para as diversas formas de lhe encarrapitar os ovos cozidos, com casca. Por volta das 13:28 (mais coisa, menos coisa) passa para as doencinhas, assunto muito popular junto da terceira idade que almoça em casa e papa tudo o que se prenda com placebos e outras curas milagrosas. Após mais quinze minutos, passa-se então a uma vinha d’alhos com futebol do meio da tabela, ténis internacional, triplo salto e um apontamento sobre um festival de cabrito de leite, no forno. Tudo atado e posto ao fumeiro, finalmente chegam à mesa, em formato torresmo, duas ou três notícias que possam ter, realmente, alguma importância para a Humanidade. Exactamente antes da sobremesa sobre um koala apanhado a atravessar, contra as leis do trânsito, uma auto-estrada australiana. E tchau. Passa rapidamente para a telenovela, exactamente antes do pessoal fugir para rever os anúncios do cálcio para os ossos e da libidinosa mezinha do ex-Futre para o osso, propriamente dito.

A ver se consigo ser informado sobre alguma coisa realmente útil, começo a zapar do Euronews para o CNN e logo a seguir para o Al Jazeera, o BBC News e o TF1, antes de me fixar num dos canais de notícias made in Portugal. Já nem os ouço, limito-me a ouvi-los. Porque, em geral, a televisão distrai-me menos que a música. Soam-me todos ao mesmo, mas a variedade ajuda-me a cruzar informação. Dá é um trabalho ainda mais hercúleo que ler o Ulisses, do James Joyce, até pelo menos à página 100.

De maneira que é um alívio para a alma chegar à cama e ter uma revista como a Courrier Internacional, um agregador em papel que se dedica a seleccionar algum do melhor material que ainda se imprime pelo mundo fora. Descobrir que é publicada pela Impresa pode causar dificuldades de digestão ao leitor com um intestino mais sensível, mas o negócio dos media tem razões que a própria razão desconhece. Só espero que o tio Patinhas não comece a fazer contas ao papel. Tenha dó. Para encher chouriços já tem a SIC, a SIC Notícias, a SIC Radical, a SIC Caras, a SIC Mulher, a Visão, o Expresso em papel, o Expresso on line, etc.

Pelas alminhas que lá tem, não me acabe com a Courrier Internacional. Afinal, é uma revista que não precisa, nem de redacção, nem de fotógrafos, nem de ilustradores. Só precisa de ser traduzida e impressa. O que me parece impecavelmente bem feito. Até tem publicidade, da bonita, como antigamente era costume nas revistas que valiam a pena ler. E, que me lembre, já não existe por aí outra que ainda valha a pena.

 

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Courrier Internacional, nº 242, Abril 2016

Ilustração na pág. 35 de Arcadio para La Prensa Libre, San José, Costa Rica

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This entry was posted on 3 de Abril de 2016 by in Mesinha de cabeceira, Patrícula elementar and tagged , , .

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