PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Agregadores e usurpadores de conteúdos alheios

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Uma das razões por que os novos modelos (editoriais e financiadores) para o jornalismo trazidos pelo advento do digital ainda não vingaram prende-se com um negócio de virtudes grandemente inexistentes do ponto de vista do progresso moral do próprio jornalismo: o dos chamados agregadores de notícias, que sustentam o seu negócio às expensas de conteúdos produzidos por terceiros. Porém, havendo acordos de parceria entre esses produtores de conteúdos e as plataformas agregadoras que os replicam ou linkam, estará tudo bem: todos beneficiam do negócio da exposição (views) e reencaminhamento (clicks) dos leitores desses sites sem produção própria para as páginas dos anunciantes em publicidade que os pagam.

Sucede que, tal como na vida material, também no mundo desmaterializado da Internet há sempre quem arranje boas razões para operar num plano de uma certa (ou até mesmo total) clandestinidade – favorecida pelos recursos de anonimato que a net proporciona. Refiro-me a uma economia paralela que prospera graças ao trabalho de pessoas que, ao alimentarem com os conteúdos produzidos pelos autores de sites não-lucrativos (e nem sequer geradores de quaisquer receitas) de blogs como este, alimentam involuntariamente também, e pela mesma ocasião, outras páginas a que são totalmente alheias, e cuja existência muitas vezes desconhecem – para não falar das “linhas editoriais” desses estranhos “espelhos” de conteúdos cuja propriedade intelectual não lhes pertence, as mais das vezes em linha com a pobreza moral em que assentam.

Refiro-me ao roubo descarado – e até mesmo encarado como uma prática comummente aceite e normalíssima – de conteúdos de carácter e valor autorais, sejam textos originais, as suas traduções para outras Línguas, sejam imagens (fotos e vídeos) de autor, etc. Um simples googling pode, nesse caso, ser de alguma utilidade em matéria de salvaguarda dos interesses autorais e editoriais associados a esses conteúdos. Não esquecendo todavia que a rapina, tal como a estupidez, não tem fim nem olha a meios. Ou seja, que os ladrões de textos e imagens alheias procuram sempre prosseguir a sua actividade paralela independentemente de tudo – designadamente linkando páginas congéneres (i.e., de outros análogos ‘furtadores’), ou ‘deslocalizando’ a actividade pela criação de novas páginas noutras plataformas.

Que fiquem bem claros os seguintes aspectos: 1. Quando neste blog se publica a tradução de um texto (por exemplo, este; ou estoutro), a publicação dessa tradução foi previamente autorizada pelo autor do texto original, que, dessa forma, cedeu os direitos de tradução formal ou informalmente solicitados; não temos evidentemente qualquer interesse em publicar traduções asseguradas pela máquina tradutora da Google, por razões que se prendem com uma auto-exigência de qualidade dos nossos conteúdos – por essa razão, realizamos nós-próprios as traduções que publicamos. 2. Quando neste blog se publica o que quer que seja – incluídas as traduções de textos de outros, como referido -, a sua republicação integral noutros sites deve ser objecto de um pedido prévio de autorização aos autores dos textos originais ou das suas traduções. Assim sucede também com as ilustrações que aqui publicamos regularmente, todas e sem excepção autorizadas pelos artistas.

Nos comecinhos da Internet existia um código de conduta conhecido por NETiquette. Com o passar dos anos e o crescimento da voragem proporcionada pela desregulação quase total do espaço virtual da Globalização, essas boas práticas foram sendo esquecidas. Todavia, elas terão nalgum ponto de ser retomadas, sob risco de a Internet se transformar numa versão sem conserto daquilo que infelizmente já é hoje: uma terra de ninguém, em que vale tudo, e onde também os negócios terão cada vez mais dificuldade em fazer-se, devido a procedimentos que deixam tudo a desejar à lisura, e onde também o jornalismo terá cada vez mais dificuldades em afirmar-se nas suas novas formas. Sendo certo que o modelo de negócio em que assentam os agregadores não serve o jornalismo, como recorrentemente tenho vindo a escrever aqui. Pois é preciso, antes de mais, gerar e experimentar novos formatos para o jornalismo, os quais serão, necessariamente, ancorados na criatividade, no trabalho de autor, e na produção própria em sentido largo.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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