PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

2 much Bowie

 

Não precisou de morrer para ser famoso e vender milhões, mas a sua morte, verdadeira pelas leis da natureza, encenada pelas leis davidianas, gerou um panegírico colectivo que começa a roçar o empanturranço.

As festas e as homenagens que se seguiram, mesmo as quase todas com fins lucrativos, tiveram ainda assim um momentum. Havia gente, muita gente, que via e ouvia David Bowie com a convicção de que ele era mesmo excepcional. E que sentiu, realmente, o impacto da sua morte prematura.

Como dizia o meu avô, “passa o dia, passa a romaria”. Porém, quando uma marca vale tanto dinheiro, nunca é bem assim. Por exemplo, houve uma Lady que, numa entrega de prémios, se fez de Gaga para aparecer outra vez em grande, julgava ela, sem ter que se matar muito. Só em Portugal duas campanhas publicitárias continuam a vampirizar a memória, a imagem e sobretudo a música de David Bowie: MEO (Absolute Beginners) e Toyota RAV4 (Changes). Ainda bem para os herdeiros, pensarão os mais judeus. Mas o que é demais corre também o sério risco de ser moléstia.

 

 

É bem verdade que o principal culpado é o próprio David Bowie. Apesar de completamente justificado, tinha um ego tão grande que não podia morrer como um gajo qualquer. Tinha que encenar a própria morte, anunciada com teasers em formato countdown, que culminaria com o lançamento da última obra — Black Star — e a morte física dois dias depois. Quase tantos como o Lázaro e o Nazareno, propriamente ditos, demoraram a ressuscitar. O que mostra, apesar de tudo, alguma contenção do ego face à dimensão da História.

Ainda me lembro que um grande amigo meu (e, tal como eu, grande admirador do defunto), se ter espantado no Facebook, quando saiu o primeiro single, Lazarus: “Bowie, o grande senhor que sempre fez tudo o que queria, sem concessões, viveu os píncaros da fama e os abismos das experiências inusitadas — não está feliz. Qual será, então, a fórmula?”. Mal sabia ele, o José Couto Nogueira. Mas Bowie sabia e, antes que a natureza cumprisse o seu destino, não fez a coisa por menos e escolheu, ele mesmo, o dia e a hora da sua morte.

 

 

 

Felizmente, alguém como Bowie transcende logo, nas calmas, a sua condição carnal. E transforma-se rapidamente em eterno. Pelo menos enquanto dure, como escrevia Vinicius de Moraes a propósito do amor. É muito provável que, daqui a cinquenta anos, a Virgin Galactic venda a sua operação de time sharing em Marte com a canção Space Oddity, de 1969. Afinal de contas, o mesmo ano em que a Apollo 11 oficialmente aterrou na Lua e Neil Armstrong se tornou mais famoso que Paulo VI e JFK. Juntos.

 

 

Créditos: na capa, Merry Christmas Mr. Lawrence, de Nagisa Oshima, c/ David Bowie, Ryuichi Sakamoto e Takeshi Kitano, 1983; vídeos, Space Oddity, versão original de 1969, versão oficial de 1972 e cover do astronauta canadiano Chris Hadfield, gravado no International Space Station, em 2013.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 27 de Março de 2016 by in Voyeur and tagged , , , , , .

Navegação

%d bloggers like this: