PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

A vitória do neoliberalismo sobre o PTismo

São Paulo - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ato na Avenida Paulista contra o impeachment e a favor da democracia (Juca Varella/Agência Brasil)

(c) Juca Varella

O Brasil está a ferro e fogo. De um lado, uma massa considerável de votantes no PT que não alinha com o pedido de impeachment ao Governo de Dilma Rousseff. Do outro, vários outros, entre os quais protagoniza um juiz, elevado, graças a processos muito questionáveis – a que o magistrado dedica um discurso mediático impróprio de um representante de um poder supostamente independente – a um lugar no panteão dos “heróis salvadores” da pátria brasileira.

Tem o juiz em seu poder (coisa que não é de somenos nem nada que se pareça, sobretudo no plano do combate político, e muito menos tendo o magistrado tornadas públicas peças especialmente sensíveis de investigação) o dossier do famoso e tentacular caso de corrupção Lava Jato (envolvendo também um cidadão com dupla nacionalidade – brasileira e portuguesa – que foi hoje mesmo detido em Lisboa).

O partido de Lula da Silva, o antigo pobre que subiu ao poder no Brasil dos pobres e tem ainda muitos apoiantes, perdeu o pé. Perdeu, desde logo, o controlo mínimo sobre a máquina corrupta brasileira – cuja dimensão nem sequer me vejo capaz de vislumbrar, tratando-se de um país cujo tamanho e complexidade societal é proporcional ao que lá se passa. Perdeu, com Dilma, a capacidade de negociar com toda essa gente, i.e., com os representantes de interesses conflituosos entre si (e que fazem o que for preciso para salvaguardar, com a ajuda decisiva da desregulação moral incrementada pela vitória do neoliberalismo sobre o PTismo). A Dilma Rousseff falta também o que Lula comprovadamente ainda tem: a popularidade, conferida por uma história de vida em que a maioria se revê ou pode ver nela um modelo mais justo e necessário, muito diferente do que rege a mentalidade de quem entende o exercício do poder político como uma prerrogativa das elites. Todavia, esse modelo tem de poder ter um poder judicial à altura da sua abrangência democrática.

Alexandra Lucas Coelho escreveu ontem sobre a urgência de um sistema democrático em que «toda a gente tem de poder ser investigada», incluindo «a Câmara de Deputados, começando por quem a ela ainda preside, o ultraconservador Eduardo Cunha, sobre quem pendem acusações de corrupção muito mais graves do que as suspeitas que existem sobre Lula.» Mas essa urgência, escreveu ainda Lucas Coelho, «implica que o judiciário não apareça como o justiceiro que vai derrubar o executivo, entregando escutas à imprensa num momento de emergência nacional, como quem lança petróleo no fogo.» O texto da jornalista que conhece e ama o Brasil, aqui.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 21 de Março de 2016 by in Política internacional and tagged , , , , , .

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