PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Vini Reilly e os amigos de Portugal

 

 

Recuo até ao início da década de 80, para relembrar um dos músicos britânicos mais fascinantes daquela época, efervescente de projectos e experiências musicais verdadeiramente inspiradores da cena musical internacional, falo de Vini Reilly. À data, por intermédio de um amigo meu, guitarrista expatriado, amigo de Vini, tive o privilégio de o conhecer pessoalmente. Guardo na memória o seu modo reservado e introvertido, mas sem ser distante. Vencida a timidez inicial, trocámos impressões sobre a sua Fender Stratocaster (e demais parafernália tecnológica – o famoso Echoplex) de que era um exímio executante. O líder dos Durruti Columm, encontrava-se em Portugal a gravar o álbum Durruti Columm Amigos em Portugal, nos estúdios da Valentim de Carvalho, com produção de Tó Pinheiro da Silva e José Valverde (editado em 1983, pela Fundação Atlântica).

No final dos anos 70, depois de o punk rock ter aberto o caminho para uma mudança decisiva no cenário musical/editorial britânico, permitindo o despontar de um recomeço da musica rock, hordas de novas editoras independentes, apareceram por todo o lado, promovendo com avidez o movimento, que ficou conhecido como post-punk minimalist music, uma delas, foi a Manchester’s Factory Records, criada por Tony Wilson. No Verão de 78, após diversas tentativas frustradas para encontrar a formação certa, os Durruti Columm – criação de Tony Wilson (a formação original, era composta por músicos de outras bandas, a que se juntou Vini Reilly) – entraram em estúdio, com Martin Hannett, para gravar o legendário EP A Factory Sampler, conjuntamente com os Joy Division e os Cabaret Voltaire (editado em Dezembro de 1978).

Porém, as inconciliáveis diferenças musicais entre os membros da banda ditaram que o talentoso Reilly, prosseguisse sozinho com os DC e, no decurso do ano seguinte, mais uma vez com produção de Martin Hannet, foi gravado o primeiro e surpreendente álbum dos Durutti Columm, The Return Of The Durutti Column (editado em Janeiro de 1980). Depois de The Return of the Durutti Column, Vini Reilly, com co-produção de Stuart Pickering, gravado em poucas horas, acompanhado na bateria e percussão por Bruce Mitchell, o seu fiel companheiro de sempre, veio a ser editado pela Factory Records, em Novembro de 1981, aquele que, ainda hoje, é considerado o favorito da maioria dos devotos, o álbum LC (abreviatura do slogan anarquista italiano Lutte Continuum, a Luta Continua).

Nos anos seguintes, o imediato sucesso de LC, levou Vini Reilly e Bruce Mitchell a uma séria de concertos nos EUA, Japão, Canadá, Finlândia, Itália, Espanha e Portugal. Tive a sorte de assistir ao concerto dos DC, na Aula Magna, em Março de 1983. Inesquecível, autêntico, mágico, sem truques na manga, equipamento mínimo: a bateria de Bruce Mitchell, com o seu estilo peculiar e um ritmo aveludado que abraçava o piano e a guitarra de Vini, deixaram a audiência deslumbrada e rendida.

O primeiro concerto dos DC, em Portugal, foi em 7 de Agosto de 1982, no Festival de Vilar de Mouros (A Certain Ratio, Echo & the Bunnymen, U2, The Stranglers, e outros fizeram um cartaz memorável), porém, o seu regresso nos anos seguintes, foi uma constante, contando-se mais de uma dezena o número de concertos em Portugal (dois deles, com a participação de Peter Hook, dos extintos Joy Division), o último dos quais, em 22 de Julho de 2007, precisamente, no Festival de Vilar de Mouros. Ao longo de mais de 30 anos, os DC criaram perto de 40 álbuns e centenas de canções. Vini, anti glamour, teve uma vida de esteta e, só ocasionalmente, colaborou com bandas mainstream, como os Simply Red, Morrissey (no primeiro álbum a solo, Viva Hate) ou os The Mondays. O que sempre gostou, realmente, foi de fazer musica que lhe dissesse algo a si e ao seu reduzido círculo de amigos.

Mas tudo mudou, repentinamente, quando a saúde de Vini (sempre frágil) se agravou, ao sofrer uma sucessão de ataques do coração, entre 2010 e 2011. Os álbuns e os ocasionais concertos, que o ajudavam a manter a sua frugal existência cessaram. Para além da incapacidade física grave (apesar de praticar diariamente para recuperar a forma, não consegue sentir as cordas da guitarra e mostra-se incapaz de controlar os movimentos da mão esquerda) e da tragédia musical, Vini viu-se numa situação financeira debilitada. De tal modo, que o seu sobrinho teve que apelar à contribuição dos fãs, para poder pagar as despesas com o sustento e até da renda de casa, já que o tio esteve na iminência de ser despejado. Mas, a “agonia” agravou-se quando teve que esperar 18 longos meses para poder receber a reforma por invalidez, a que tinha legitimamente direito. As ajudas financeiras e o apoio dos fãs, consta, evitaram a suas tendências naturais para depressão e o suicídio. Ainda que, seja débil a esperança de que Vini venha a recuperar totalmente o exercício das suas capacidades físicas, o criador de espaços únicos, não repetidos e irrepetíveis, permanecerá eternamente aliado à graça/delicadeza e consistência de uma carreira musical exemplar. Também por isso, no mínimo, enquanto aguardamos o seu regresso ao trabalho (em 2014, saíram notícias sobre um novo disco, o que não se confirmou), para além do tributo e reconhecimento devidos, o que podemos fazer é continuar a ouvi-lo, e a comprar os seus discos no link do site oficial dos DC: http://thedurutticolumn.com/index.php.

 A discografia extensa e de difícil catalogação, encontra-se dispersa por um sem número de editoras, cassetes piratas e raridades, muitas delas nas mãos de autênticos coleccionadores, dado o número de limitado de edições. Felizmente, hoje é possível adquirir algumas das suas obras, em fase de reedição no link supra, destaco a reedição no mês passado de Durruti Columm Amigos em Portugal e a edição especial em duplo vinil, prevista para 6 de Maio de 2016, do álbum LC, do qual, deixo os videos dos temas Never Know (em cima) e Jacqueline (Live 1988):

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