PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Brasil: o impeachment mediático da Globo e da SIC ao PT

Cglobo e sicom regularidade e há bastante tempo, sigo a comunicação social brasileira. Tenho, é óbvio, as minhas preferências, em função das linhas editoriais características de cada jornal ou dos noticiários televisivos – ‘A Folha de São Paulo’ e o ‘Jornal do Brasil’ são os meus eleitos na imprensa escrita (leio O Globo de forma breve); dos canais de TV, mesmo quando visito o Brasil, olho para o écran para assistir ao ‘telediário’ da ‘Globo’ sem especial atenção; a pobreza de conteúdos é enorme e muitas vezes marcada por uma chocante falta de independência política, não me interessando também pelo canal da Record.

O grupo Globo é, como se sabe, um agregado empresarial sólido, financeira e comercialmente. Domina o mercado televisivo brasileiro com 34% de quota, cabendo o 2.º lugar à Record com 15%.

A minha rejeição relativamente à Globo não é questão idiossincrática. Trata-se da simples e natural adequação às minhas preferências televisivas (escassas, de resto), associadas à aversão à manipulação da informação como forma de combate cobarde e grosseiro contra ideais e líderes políticos que o presidente do grupo, Roberto Marinho, detesta. O PT, Dilma e Lula, sempre foram adversários a abater. Desta feita, com os acontecimentos ocorridos no Brasil, a Globo não só mobilizou manifestantes a favor do ‘impeachment’ de Dilma, como limitou ao mínimo o espaço de notícias que, de facto, revelassem a dimensão real das manifestações a favor de Lula que, de São Paulo a Natal, se realizaram  6.ª feira.

Sinto alguma satisfação em saber que, na reprovação da prestação tendenciosa da TV Globo, não estou só. O insuspeito New York Times (NYT), neste artigo, já denunciou a forma leviana como o ‘telediário’ daquela estação trata o processo de ‘impeachment’ da Presidente Dilma e minimiza as notícias dos actos de corrupção de que é acusado Eduardo Cunha (homem do PMDB e Presidente da Câmara de Deputados); este último, por ser amigo, deve ser poupado com notícias desfavoráveis – é o que penso.

Mas o NYT vai mais longe. Traz à memória dos leitores que o Grupo Globo foi aliado e suporte da ditadura militar. Candidamente, o grupo de comunicação social agora confessa:

“À luz da História”, diz-se, “não há razão para não reconhecer explicitamente hoje que esse suporte foi um erro, e que outras decisões editoriais que foram seguidas naquele período foram também erradas”.

Entre 1964 e 1985, um erro que durou vinte e um (21!) anos jamais pode ser erro; mas, ao invés, um acto deliberado e desumano prolongado no tempo contra os cidadãos brasileiros. O género de poder em causa redundou em perseguições, crimes e repressão continuada exercida pelos ditadores militares.

Chegamos agora ao capítulo SIC. O Grupo Globo já foi accionista e ainda mantém interesses importantes em negócios com aquela estação televisiva portuguesa.

A SIC, aturdida com a derrota parlamentar da coligação PSD+CDS, e com as contas de exploração bastante perturbadas, tomou igualmente medidas no domínio editorial. Sob a coordenação de Rodrigo Guedes de Carvalho e José Gomes Ferreira, duas “preciosidades” do nosso jornalismo, reestruturou as equipas redactoriais, afastando profissionais. Sobretudo, os favoráveis ao Governo de António Costa, suportado pelo BE, PCP e PEV. Contrariamente à imagem de canal televisivo democrático e isento, surgido pela mão do saudoso e competente Emídio Rangel, a qualidade dos noticiários deteriorou-se profundamente, com uma evidente inclinação para a direita neoliberal e, consequentemente, defensora de uma sociedade de espessas desigualdades.

O dinheiro na Impresa, holding a que a SIC pertence, não abunda. Há profissionais que tiveram de aceitar cortes das retribuições de trabalho, se quiseram continuar nos quadros. Todavia, os resultados em termos de quota de audiências do canal do Dr. Balsemão estão muito abaixo dos conseguidos pela TVI.

Ultimamente, deu-se nova reviravolta. Norton de Matos saiu de presidente da Impresa, cedendo o lugar ao filho do Dr. Balsemão (Francisco Pedro).

A nível de estrutura redactorial e editorial, há nova mexida. Salta o polivalente, amovível e sábio Ricardo Costa para Director de Informação e o falso economista Gomes Ferreira fica em Director-adjunto. A SIC, inclinada à direita, ficou na pasmaceira do noticiário pobre, mais exaltado quando visa malhar no Governo de António Costa e com uma grande poupança de trabalhos directos no estrangeiro.

No Brasil, com a insípida Ivan Flora a falar pelo ‘Skype’ do RJ, serve-se do material que a Globo lhe envia, em termos de noticiário (as telenovelas constituem outro negócio). Como não se tratasse do Brasil, um país dito irmão, onde temos uma colónia de mais de 300.000 portugueses, as imagens de apoio a Lula limitaram-se a exibições céleres e em doses muito controladas, tal como na irmã Globo.

Com os canais da TV e os sistemas judiciais (o processo BPN está muito próximo de prescrever), os irmãos da História desde os Descobrimentos tornam-se hoje ainda mais fraternos. Agora, com um tipo de irmandade preferida pela direita neoliberal, ou seja, irmandade das baixas condições de vida e salários de miséria, porque o importante é proteger os magnatas, corruptos e homens reles deste calibre (Belmiro Azevedo).

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