PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

L’ écornifleur, esse grande intruja

 

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Além de uma relativa contemporaneidade, o que é que o musicólogo italiano Luigi Russolo, o químico alemão Fritz Haber e o escritor francês Jules Renard têm em comum? Por um lado, quase nada. Por outro lado, quase tudo. Sobretudo se os observarmos pelo lado bê da História. O que, normalmente, é sempre mais interessante que o lado luminoso da fama.

Luigi Russolo, músico medíocre, com uma simples carta-manifesto, L’arte dei rumori, lançou as bases da música do século XX. Stravinsky, Varèse, Stockhausen e Cage, mas também DJ Spooky, Brian Eno e os Art of Noise, bem como seguramente todos os músicos minimamente atentos, sabiam perfeitamente quem ele era e, sobretudo, o que se tinha atrevido a teorizar. Eu, que sou das letras, mas que me considero razoavelmente informado até sobre as vantagens da calda bordalesa nas árvores de fruta, só muito tardiamente dei por ele. E apenas por causa do Manifesto Futurista, do Marinetti. De quem era, seguramente não por acaso, grande amigo e correlegionário nas extraordinárias modernices do princípio do século XX. Pois, se não fosse a clarividência aleatória do Google, ainda hoje viveria na mais completa ignorância sobre esta personagem fundamental do que hoje habitualmente chamamos — pós-modernismo.

Fritz Haber, em contrapartida, era um químico alemão. Ao serviço da Alemanha imperial, isolou o gás de cloro, experimentou-o nas trincheiras da I Guerra e criou, para todo o sempre, o conceito de guerra química. Que tenha ganho o Nobel por esse feito tão pouco urbano, foi mais uma daquelas ironias em que a História é fértil. Que, apesar do seu nacionalismo doentio, tenha sido obrigado a fugir da Alemanha nazi, só porque lhe tinham extraído o prepúcio oito dias depois de ter nascido, foi apenas o castigo terreno pelo desrespeito de um dos princípios mais sagrados da Torah — “Não matarás”. A verdade é que, não fora eu ter sido episodicamente casado com uma química aplicada, nunca teria ouvido falar deste judeu que voluntariamente contribuiu para a engenhosa invenção do Zyklon B.

Por sua vez, Jules Renard era um homem do seu tempo, mas era também um escritor muito à frente do seu tempo. Na vidinha real, era tão pendura que chegou a ser conselheiro municipal e depois presidente da câmara de Chitry, a sua terra natal. Mas foi, ao mesmo tempo, um dos grandes inventores daquele all that jazz que fez da literatura do fim do século XIX uma música ainda hoje tão audível. E, melhor que tudo, ainda hoje tão dançável.

Setenta anos depois da sua morte, Jean Paulham deixou escrito: “Exerceu na prosa a mesma atracção que Rimbaud e Mallarmé exerciam na poesia”. Não é para todos. Ainda assim, não fora a teimosia do Aníbal Fernandes, do Manuel Rosa e da Assírio&Alvim (no tempo em que ainda era uma Editora e não apenas mais uma chancela da Porto Editora) e eu, ainda hoje, viveria na ignorância deste que é um dos maiores espalha-brasas do século XX.

O livro, esse lê-se por si. No entanto, o melhor é lerem-no. Lê-se tão facilmente que até se lê ao pé coxinho. É tão caminhável, em passo rápido, como o Manhattan Transfer de John dos Passos, o Molloy de Samuel Beckett e a Morte a Crédito de Louis Ferdinand Céline são maratonáveis, em passo lento. Muitos passos tão à frente na arte da linguagem, que até Boris Vian se viu russo para lhe acompanhar o passo. E aquela desfaçatez de fazer a folha à leguminosa mulher do seu benfeitor, não sei porquê, fez-me logo lembrar a Viridiana de Luis Buñuel. Mas também pode acontecer que a minha memória esteja já com excesso de memórias. E as confunda todas, baite não baite, umas com as outras.

Anos depois de ter escrito este livro cheio de atrevimento pós-adolescente, Renard casou-se, tornou-se funcionário público e teve uma filha – legítima. O que lhe mudaria rapidamente a perspectiva. Adaptou O Pendura ao show biz e exerceu o privilégio da auto-reciclagem: onde antes se lia uma comédia de maus costumes, passou a ver-se uma tragicomédia de burgueses bem comportados.

Apesar deste tardio uso dos suspensórios da moral e dos bons costumes, o que fica sempre é a primeira impressão. O sentido de humor, que lhe ganhou a irónica amizade de Toulouse-Lautrec e os comentários naturalistas de Émile Zola, ainda hoje tem mais peso que todos os arrependimentos da meia-idade. Lê-lo é um acto de liberdade. E, se se divertirem enquanto o lêem, então é porque perceberam que a vida sem gargalhadas é como um jardim sem flores, sem relva, sem nada.

Ainda há escritores assim. Por descobrir. E livros disponíveis nos fundos da Assírio&Alvim. É só deslocarem-se à superfície comercial mais próxima e encomendarem-no ao balcão de uma Bertrand. Aproveitem enquanto há. Depois, só nas Escadinhas do Duque e a preços de judeu.

 

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O PENDURA (L’Écornifleur), Jules Renard, 1892

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes; capa, pormenor de A Mentira, 1898, Félix Vallotton, inspirado n’ O PenduraAssírio & Alvim, 2009

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This entry was posted on 18 de Março de 2016 by in Mesinha de cabeceira and tagged , , , .

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