PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

João Nicolau de Mello Breyner Moreira Lopes (1940 – 2016)

nicolau_ 1967

Nicolau Breyner. Morreu esta semana, e doeu-me a sua morte. Não éramos amigos, a sua vida era uma violência, idiossincraticamente violenta, e também comprovadamente incompatível com a violência da minha própria vida, na qual ainda assim há mais tempo do que havia na dele para ser, pensar, estar. Não éramos amigos por essa razão substantivamente prática, apenas ela se interpunha nessa possibilidade certa de amizade. Ele era muito cativante, muito divertido, sensível às coisas belas, cultivado, alentejanamente gentil (o que é muito diferente de ser amável), terno, inteiro.

Fui a sua primeira biógrafa, gostei de sê-lo, de conhecê-lo de mais perto, de ir ao seu Alentejo conhecer as suas pessoas e caminhar na sua terra e nas suas pedras, de receber um passaporte de Alentejana, também. A sê-lo, compreendi quem foi, de onde vinha (e vinha de longe, lembro-me de rastrear a sua genealogia até ao século XIII, imagine-se tal rewind, sem grandes recursos, só as coisas que desencantei – com ajudas preciosas e esclarecidas, é certo – e me levaram a tão distante tempo na linha de sangue da aristocracia a que o João Nicolau pertencia), quem era bem lá no fundo do seu mistério individual, bem como quem eram todos esses outros, antigos, densos, que transportava no que era, em quem era, nessa sua forma de ser a metamorfose desse que digo e aqui evoco, e que levava o selo do século XX português. Teve uma vida cheia. Demasiado, talvez.

Na imagem: Nicolau Breyner galã de cinema em 1967
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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 17 de Março de 2016 by in Cinema, Obituário, Patrícula elementar, Portugal imortal and tagged .

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