PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O bondoso engenheiro Guterres

 

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Até 1990, a máquina de propaganda dos partidos ainda funcionava basicamente a vapor. Talvez um pouco menos o PCP, que conhecia por dentro o construtivismo soviético e tinha acesso, pro bono, a publicitários em geral e a gráficos em particular, todos eles estrategicamente infiltrados na mal-amada engrenagem capitalista.

Ao contrário do que os barbudos mais novos possam por vezes pensar, antes de 1974 já havia publicidade e até agências de publicidade. A economia estava submetida à lei do condicionamento industrial, o mercado ainda era muito incipiente, mas já havia oferta e procura, ou seja, consumo. Se, na Metrópole, não se vendiam americanices como a Coca-Cola, ao que parece por embirração de um funcionário genuinamente preocupado com a saúde da mocidade portuguesa, em compensação havia Canada Dry que, como o próprio nome indica, vinha do Canadá. E Compal e Sumol e Trinaranjus sem borbulhas. E Sagres e Cergal, a cerveja de Portugal. E a saúde está primeiro, beba água do Vimeiro. E belos anúncios à pasta medicinal Couto, à poupadinha Citröen Dyane, às calças Rica Lewis e ao sabonte de quase todas as estrelas. E ao “Pois, pois Jota Pimenta”, o inventor da Reboleira e do sucesso-pato-bravo que nos haveria de atazanar pelas quatro décadas seguintes.

Havia mesmo uma ou outra incursão das networks internacionais, como a JW Thompson, em associação com a Latina, que fugiria espavorida com o PREC e só regressaria com o governo de Pinto Balsemão. Mas é verdade que, no geral, o panorama era tão ‘probezinho’ como o mercado em si. No entanto, com a entrada de Portugal na CEE, o mercado desabrochou, salvo seja. E a publicidade, também. Os partidos, de esquerda e de direita, não podiam deixar de aderir à lógica de mercado e de aproveitar as eficientes técnicas de venda das marcas e dos produtos. Que é, exactamente, o que os partidos e os candidatos são. Nem mais, nem menos. Talvez com a diferença que um candidato, para o melhor e para o pior, é um produto que fala. E tem opinião. O que nem sempre ajuda.

Nas eleições autárquicas de 1993, de sabática entre agências, eu e o François Barbier ‘agarrámos’ algumas campanhas das mais de 300 que, ainda hoje, por aí proliferam, de quatro em quatro anos. Como profissionais que éramos, para nós o PS e o PSD eram tão clientes como, por exemplo, a Pepsi e a Coca-Cola. O que votávamos ou não votávamos, sendo certo que um de nós nem sequer podia votar, era precisamente como o que bebíamos, ou não bebíamos. Uma coisa não tinha nada a ver com a outra e ninguém tinha nada a ver com isso.

Não chegámos a levar até ao fim nenhuma dessas campanhas. Ou porque se atrasavam nos pagamentos, ou porque as guerras internas geravam condições insuportáveis, ou porque os candidatos se armavam em criativos e nos assassinavam o trabalho pelas costas, houve de tudo um pouco. Querem nomes? Ainda alinhavámos uma estratégia para o hoje recluso Armando Vara, na Amadora, mas esbarrámos noutra proposta com um orçamento aparentemente melhor. Fizemos grande parte da campanha, Por Loures, do actual primeiro ministro. Em Vila Franca de Xira, a última vez que vi ainda usavam a ‘assinatura’ de campanha que lá deixámos para o PS — Francamente melhor.

Uma tarde, creio que na apresentação de Caio Roque, pelo Seixal, acabávamos de montar o palanque para os discursos e as fotos alusivas, apareceu-nos pela lateral o então secretário-geral, o bondoso engenheiro Guterres. Como qualquer político razoavelmente bem educado, apertou a mão a todos os presentes. Estarrecido com a flacidez mortal daquela mão direita do PS, logo que se afastou comentei, em surdina — “Este gajo chega a primeiro ministro e estamos quilhados”.

Dois anos depois, chegou mesmo. O primeiro mandato, apesar de governar em minoria, correu menos mal. A mesada de Bruxelas chegava a tempo e horas, a economia lá ia crescendo, o crédito ainda não tinha fama de mal parado e, quando assim é, o resto tende a correr pelo melhor. It’s the economy stupid, anunciava a primeira campanha de Bill Clinton à presidência nortamericana. E é mesmo. Se não fosse aquele referendo com o Marcelo e a santa madre igreja, sobre a questão da vida antes da vida, praticamente não haveria nada a apontar ao primeiro governo do bondoso engenheiro Guterres.

De modos que, nas eleições que se seguiram, ganhou com uma maioria quase absoluta. O que rapidamente se resolveu com os afamados ‘orçamentos do queijo limiano’, em homenagem ao deputado-autarca daquela pitoresca localidade minhota, conhecida internacionalmente pela lampreia, pelo vinho verde e pelo queijo tipo-flamengo.

Porém, a meio do mandato, sentiu o cheiro de um ciclo económico menos favorável e demitiu-se. Meteu o rabo entre as pernas e fugiu. Pura e simplesmente, como diria Paulo Portas, bazou.

Como sempre acontece no bizarro mundo da política, três anos depois já era Alto Comissário da ONU para os pobres refugiados. E voou alto no palco do infotainment internacional, onde o espectáculo da guerra se mistura com o star system de Hollywood e o bom cidadão se reencontra com a sua consciência de bom cidadão.

Um dia os refugiados, os das guerras do petróleo, os das purgas religiosas e os das periferias do terceiro mundo, em geral, começaram todos a sonhar com a Europa, com o auxílio do crime organizado e da consciência pesada da chanceler Angela Merkel. O bondoso engenheiro Guterres farejou novamente o perigo e resolveu, mais uma vez, fugir para a frente. Ainda lhe ofereceram de bandeja a presidência da República portuguesa, Marcelo chegou mesmo a dizer que recuaria se o bondoso engenheiro Guterres avançasse, mas nem pensar em sair de Nova York e regressar ao “pântano político” de Lisboa. Anunciou a sua candidatura a secretário-geral da ONU. E o PS e o PSD e o CDS e o BE e o PCP e o PEV e o PAN e o PR e os heteros e os homos e os generalistas e os católicos e os acólitos e os ateus e sobretudo o padre Melícias, todos em uníssono resolveram apoiar, incondicionalmente, esta candidatura que é tão grande como o Adamastor e maior que a gesta dos sete mares. O que me deixa boquiaberto. Mas, aparentemente, sou quase o único.

Como é que alguém, no seu perfeito juízo, pode confiar num marinheiro que só sabe navegar de cabotagem e manda recolher as velas mal o vento deixa de soprar de feição? Se daqui a dez anos ainda restar alguma coisa do que ainda resta do planeta Terra, ver-nos-emos também obrigados a apoiar, um por todos, todos por um, a candidatura do bondoso engenheiro Guterres a um governo humano no exílio, em Marte?

 

 

Créditos: título gentilmente rapiocado ao meu falecido amigo, também ele entre outras coisas publicitário, Júlio Pinto; na foto, a grande Angelina Jolie, o pequeno putin turco e o bondoso engenheiro Guterres, de cabeça baixa, como sempre convém a quem sabe como se faz para subir na vida.

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6 comments on “O bondoso engenheiro Guterres

  1. Pingback: Sobre o discurso ao congresso de António Costa enquanto como excedentes alemães (*) | PATRÍCULA ELEMENTAR

  2. A.M.
    17 de Março de 2016

    Curioso, o leitor como é que sabe quem é o autor?
    Estou a ver mal, não vendo qq indicação?

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    • José Xavier Ezequiel
      17 de Março de 2016

      Tem razão. É uma limitação do formato WordPress. Que estamos a tentar, digamos, minimizar. Contudo, se reparar no canto superior direito, aparece o nome do autor sob a epígrafe — Information. Em todo o caso, o autor sou eu — José Xavier Ezequiel. Disponha.

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      • A.M.
        12 de Abril de 2016

        Muito obg pela atenção.

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  3. José Couto Nogueira
    16 de Março de 2016

    Gostei muito da opinião e este comentário não é para criticar nada, apenas esclarecer: a Coca-Cola não entrou em Portugal porque os Melos (Unicer), que detinham a Sagres e a licença da Canada Dry e da Schweppes, não queriam concorrência tão perigosa. Com o tal do Condicionamento Industrial, foi fácil.

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    • José Xavier Ezequiel
      16 de Março de 2016

      Obrigado pela correcção que, na verdade, faz muito mais sentido que a lenda que por aí corre. Segundo essa lenda, um director-geral teria feito a seguinte consideração: se a Coca-Cola contém o que a marca sugere, não é aceitável poder estar à venda; se não tem nem coca nem cola, então é publicidade enganosa.

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This entry was posted on 16 de Março de 2016 by in Voyeur and tagged , , , , .

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