PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Damon Albarn (Makandjan Kamissoko), Rei do Mali

Não, o Mali não é uma monarquia, mas uma República, oficialmente, a República do Mali ou República do Máli, situada na África Ocidental.
O país, devastado pela barbárie e terror cometidos, após o golpe de estado de 2012, graças à (ir)responsabilidade histórica da República Francesa, enquanto antiga potência colonial (o Mali fazia parte do Sudão Francês), agravada por uma incompreensível ausência de uma verdadeira política externa da velha Europa – mais preocupada com o seu umbigo – vive, ainda, em estado de emergência (decretado após os acontecimentos ocorridos no Hotel Radisson Blu, na capital Bamako, uma semana após os atentados em Paris).

Mas isso são contas de outro rosário porque, felizmente, a música continua a tocar.
Músicos de diferentes etnias e regiões, tão influentes como Toumani Diabaté e Mamadou Diabaté, intérpretes da kora, grupos musicais tuaregue (do norte) como os Tinariwen e Tamikrest, ou artistas como Salif Keita, Amadou & Mariam, Oumou Sangaré, Habib Koité e Vieux Farka Touré, filho do falecido guitarrista Ali Farka Touré, que combinava a música tradicional do Mali com os blues, persistem, apesar de tudo, em manter vivas as vibrantes tradições musicais do Mali, com a corajosa colaboração de Damon Albarn, destacada figura da brit pop, que hoje trago aos ouvintes/leitores.

Dois meses após o atentado de Bamako, não obstante a ameaça de novos ataques e os avisos da embaixada inglesa, Damon Albarn (bem como o baterista nigeriano, Tony Allen, membro dos The Good The Bad & The Queen e figura tutelar do afro-beat da histórica banda de Fela Kuti, Africa 70) aceitou o convite para participar, conjuntamente com outros músicos Malienses, no “Festival Acoustik Bamako”, um evento organizado pelo seu amigo de longa data, Toumani Diabaté.
Albarn, granjeou reconhecimento e sucessos ao longo dos anos, enquanto líder dos Blur, dos Gorillaz e dos The Good The Bad & The Queen, mas, recentemente, foi agraciado com o título de “local King” de Kirina, uma pequena cidade do Mali, com o nome de Makandjan Kamissoko, em reconhecimento do seu trabalho na escola de música daquela comunidade e como membro da fundação Playing For Change.
Recordo que, ao longo dos últimos anos, Albarn visitou frequentemente o Mali e, em colaboração com músicos locais, editou dois álbuns: Mali Music, em 2002 e Maison Des Jeunes, em 2013.
Para os mais curiosos aqui fica, para audição na íntegra, o primeiro:

Depois da paragem de doze anos dos Blur, foi editado o ano passado o ansiado The Magic Whip, mas convém relembrar que desde 2003, Albarn fez doze álbuns, incluindo quatro com os Gorilaz. Foi ainda co-autor de duas bandas sonoras e duas óperas (Monkey and Dr Dee). E, para além dos supracitados registos com os músicos do Mali, colaborou com músicos folk da República Democrática do Congo e com o compositor Michael Nyman. Associou-se, ainda, à editora Honest Jon’s especializada em curiosidades como London is the Place for Me.

Para alguns, Albarn mereceria ser considerado tesouro nacional no reino de sua majestade mas, relevando o exagero, é inegável que o prolífico multinstrumentista não pára, senão vejamos: aguarda-se para este ano, para além do regresso dos Blur, o segundo álbum a solo (depois do Everyday Robots, de 2014); um novo álbum dos “virtuais” Gorillaz; já confirmado pelo próprio, novo disco dos The Good, the Bad & the Queen (projecto desenvolvido em 2007 na companhia daquele que foi o baixista dos Clash, Paul Simonon, do guitarrista dos Verve, Simon Tong, e do baterista Tony Allen); e, sem confirmação, ainda na agenda deste ano, um novo musical – na esteira de Wonder.land – que estreou este ano no Manchester International Festival.

Para quem parece não fazer muito, a verdade é que faz muito mais do que qualquer outro, e fá-lo bem, por isso, nada mais justo, do que, sem reserva mental, prestarmos vassalagem ao Rei do Mali, deixando aqui, para audição a primeira faixa do seu único álbum a solo Everyday Robots, editado em 2014, co-produzido por Richard Russel, com contribuições, entre outros, de Brian Eno e Natasha Khan.

O tema homónimo, revelador da resignada desconfiança de Albarn sobre a sua relação com as novas tecnologias, começa com um sample do comediante Lord Buckley acerca do explorador espanhol do séc. XV, Alvar Nuñez Cabeza de Vaca: “They didn’t know where they was going but they knew where they was, wasn’t it”.

 

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