PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Sobreviver a Bernhard e celebrá-lo

Bernhard in Portugal

Thomas Bernhard é um dos meus heróis literários. Gosto muito de tudo o que deixou escrito, não há nenhum livro seu que me enfade, ou que me deixe indiferente, seja prosa, poesia ou teatro. A sua escrita inscreve, com incrível brilho literário (i.e., beleza e verdade), muito do que me interessa na arte chamada literatura. Tudo em Bernhard me interpela: os temas (prosaicos, autobiográficos, identitários, políticos), a musicalidade (Bernhard foi um espantoso “compositor” literário), a narração do que foi para ele ser um escritor.

Um dia li O frio – integra a edição portuguesa de Autobiografia (Sistema Solar, 2014) – e fiquei cheia de frio, quase adoeci, o que me levou a ter de procurar um outro livro, necessariamente de um outro autor, para me curar. Telefonei a um amigo e disse-lhe que precisava de me aquecer e de fazer as pazes com o Mundo: sugeriu-me Os frutos da Terra (em Português editado pela Ambar, 2013), de André Gide, e realmente funcionou. Daí a dias estava como nova. Mas na memória do espírito, agarrada ao corpo como uma lapa de um inferno passado, ficou-me para sempre aquele frio, e a compreensão, através de uma experiência religiosa da leitura, do que foram as mais precoces e dolorosas vivências de Bernhard, independentemente das parcelas de construção ficcional a que lançou mão. 

No entanto, e apesar de todo este amor e dedicação a Bernhard, não posso lê-lo na Língua em que escreveu, por ser quase totalmente germano-analfabeta. Afortunadamente, posso ler em Francês, o que me permite, pelo menos assim o creio, ter uma experiência de leitura literariamente mais interessante do que aquela que pode ser-me proporcionada pelas traduções de José António Palma Caetano, o tradutor oficial de Bernhard para a Língua portuguesa. Tanto quanto sei vivendo na Áustria há muito tempo, Palma Caetano – cujas qualidades enquanto estudioso especialista na obra bernhardiana não questiono – está comprovadamente demasiado afastado do Português para fazer justiça literária à tradução do importante escritor austríaco. Na verdade, penso que a literatura de Thomas Bernhard deveria ser traduzida por um escritor. Alberto Pimenta, por exemplo, teria seguramente feito coisa diversa e sobejamente melhor.

Isto que digo é menos importante tratando-se do livro Em conversa com Thomas Bernhard (Assírio&Alvim, 2006, também traduzido por Palma Caetano), por ser a edição uma compilação de entrevistas a Bernhard, realizadas pelo jornalista austríaco Kurt Hofmann entre 1981 e 1988. Mas mesmo assim, momentos houve (vários) em que me perguntei como puderam os responsáveis pela edição dar à estampa prosa tão deficientemente portuguesa. Felizmente, a verve de Bernhard – misantropa quase até ao vómito, o que a torna extremamente cómica, mas sobretudo genial – salva o leitor dos incómodos sintácticos (e outros) causados pelo tradutor tão longamente emigrado e esquecido do caminho para o melhor Português. Thomas Bernhard, que adorava Portugal, não teria gostado de saber isto. Nem quero imaginar o que diria, ou escreveria.

Um dos temas da conversa intitulada «Ratazanas, ratos e jornaleiros», bem como um lugar – território, povo, cultura, gastronomia, costumes – cujas superlativas qualidades, aos olhos impiedosos de Bernhard, tornavam ainda pior do que já era a «porcaria» da Áustria – que estendia à «horrorosa» Europa Central -, um país de «gente obtusa, [cujo] clima faz realmente a fisionomia, de pessoas estúpidas, [com] olhos murchos [em que] tudo por elas escorre», Portugal tinha para o escritor uma outra característica que o encantava, e cuja proximidade fazia com que se sentisse renascido (o que não era coisa de somenos, tratando-se de Bernhard, e de Bernhard já no fim da vida, irascível e completamente farto de tudo): o mar.

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Em conversa com Thomas Bernhard (Aus Gesprächen mit Thomas Bernhard), Kurt Hofmann
Assírio&Alvim, 2006
Tradução e apresentação de José A. Palma Caetano

Na imagem: Thomas Bernhard em Portugal em Maio de 1976

 

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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