PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Dj Spooky that Subliminal Kid

 

 

Paul D’ Shonne Miller (n. 1970), desconhecido para a maioria dos melómanos, talvez não o seja enquanto “Dj Spooky that Subliminal Kid” (nome emprestado de uma personagem da novela Nova Express de William S. Burroughs). Em todo o caso perguntarão, com pertinência: a que propósito trago à colação DJ Spooky, artista conceptual, que navegou inicialmente nas águas tumultuosas do hip hop, para mais tarde se aventurar na música electrónica-experimental, tendo, pelo meio, estudado filosofia e literatura francesa no Bowdoin College, para continuar como professor de “Music Mediated Art” na European Graduate School e, ainda, como Executive Editor da Origin Magazine, ao título desta secção da Patrícula Elementar, L’arte dei Rumori ?

A Arte dos Ruídos (L’arte dei Rumori) – manifesto futurista escrito em 1913 por Luigi Russolo ( 1885-1947) numa carta ao seu amigo o compositor futurista Francesco Balilla Pratella – considerado como um dos textos mais importantes e influentes da estética musical do século XX, questionava o papel que os instrumentos desempenhavam na música da época. Nomeadamente, a necessidade de criação de novos instrumentos musicais que dessem resposta aos anseios e necessidades dos compositores. A vontade de alargar o leque de materiais brutos à disposição do compositor era uma necessidade urgente. Insistindo no esgotamento do leque tímbrico da maioria dos instrumentos musicais tradicionais que, para ele, haviam ao longo da sua história assumido um carácter limitador e cerceador da criatividade e da imaginação do compositor, Russolo criou o Intonorumori, máquina (ancestral dos geradores de frequência), que tinha por função produzir ruídos, com um determinado nível de controle sobre a sua execução.

machine

Um dos aspectos que mais o motivavam era precisamente a possibilidade de se colocar todos esses novos instrumentos ao serviço da produção de novos sons, de novas práticas de combinação desses sons. Não se tratava propriamente de reproduzir algo parecido ao que já se possuía, mas sim de obter algo que ainda não tivesse sido conseguido, pressuposto fundamental na composição musical, segundo o qual Russolo propunha: “This new orchestra will produce the most complex and newest sonic emotions, not through a succession of imitative noises reproducing life, but rather through a fantastic association of these varied sounds. For this reason, every instrument must make possible the changing of pitches through a built-in, larger or smaller resonator or other extension”(Russolo, Luigi, L’Arte dei Rumori. Utilizada a versão inglesa The Art of Noise, s.l., UBU Classics, 2004, p.11).

O legado de Russolo, no contexto musical, não foi esquecido mas, foi preciso esperar pela segunda metade do séc. XX para se verificar uma realização mais efectiva, através de compositores como Edgar Varèse, Pierre Schaeffer, Pierre Henry e John Cage, distintos executores de muitas das ideias avançadas por Russolo, responsáveis pela penetração do ruído, do som considerado não-musical, no universo da linguagem musical.

Curiosamente, não deixa de ser interessante constatar que, sobretudo no contexto das artes plásticas, são os artistas alheios à tradição musical instituída, que melhor uso sabem dar a algumas das inovadoras propostas com que Russolo avançou. Hoje, após o advento da música electrónica, o que vemos nas artes plásticas são experiências que tomam o som e as várias possibilidades de ser produzido como matéria fundamental de base na procura dessa manipulação da sua plasticidade. O que significa que o legado de Russolo continua a ser válido nos nossos dias.

Seria fastidioso enumerar toda a obra discográfica de DJ Spooky (disponível nos sítios do costume), em contextos tão diversos (multimédia, spoken-word, performance, ballet, bandas sonoras etc), bem como as múltiplas colaborações, ao longo da sua carreira (Ryuichi Sakamoto, Laurie Anderson, David Byrne, Patti Smith, David Sylvian, David Torn, Bernardo Bertolucci, Steve Reich e Iannis Xenakis, só para citar os mais conhecidos), mas na correlação com Russolo, destaco o álbum Rhythm Science: Excerpts and Allegories from the Sub Rosa Archives, Vol. 1, editado em 2004, remisturado 4 anos depois.

Com acesso livre aos arquivos do catálogo da editora Belga Sub Rosa, DJ Spooky, atravessando todo o séc. XX, produziu um enorme tapeçaria sónica (45 faixas), através de justaposições de excertos de vozes como as de Allen Ginsberg e Jean Cocteau misturados com selecções instrumentais de To Rococo Rot e Trilok Gurtu. Pedaços de Philip Glass Music in Fifths seguidos da Poème Electronique, peça pioneira da música concreta de Varèse, Ghost Dub de Bill Laswell, misturados com uma gravação de René Magritte e, na faixa 33: Luigi Russolo Corale mixed w/ DJ Spooky:

http://www.subrosa.net/en/catalogue/soundworks/dj-spooky-that-subliminal-kid_01.html

Aqui chegados, aos leitores/ouvintes deixo para, sem desnecessários esforços, ver e ouvir:

DJ Spooky – Ibid, do álbum de 2002 Optometry, em colaboração com os distintos músicos de jazz, Matthew Shipp, William Parker, Joe McPhee, Guillermo E. Brown:

 

 

E, finalmente, DJ Spooky: Rebirth of a Nation  (promo trailer) projecto ambicioso de 2004, em colaboração com o Kronos Quartet, cujo album com o mesmo nome, acabou por ser editado o ano passado pela editora Cantaloupe Music .

 

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