PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Serviço Público como alternativa

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António Costa Santos é um jornalista que pertence a uma geração que foi sendo paulatinamente afastada do jornalismo – certamente para não empecilhar os objectivos de manipulação da liberdade de imprensa e de “contenção de custos” que, para além de tudo o mais (que não é pouca coisa, pois inibe o jornalismo de ser um efectivo e independente escrutinador dos poderes, e um espelho verdadeiro e tão amplo quanto possível da sociedade, e não apenas de alguns sectores dela, como sucede com alguns canais de tevê e jornais ditos “de referência”), amputaram das redacções a memória do jornalismo português. Um legado a que os estagiários provindos das escolas de comunicação de fazer “jornalistas” de aviário não têm hoje acesso, i.e., contacto directo com a experiência, criatividade e capacidade de pensamento (alternativo, divergente) dessa geração – hoje integrada por uma grande maioria de pessoas no desemprego, ou no sub-emprego.

Fazendo jus às qualidades dessa geração de pessoas livre-pensadoras, cultas e criativas (uma elite comprovadamente sem qualidades para os actuais gestores das empresas de comunicação social), António Costa Santos assina neste momento um programa na Antena 2 cuja maior virtude é a de mostrar a que ponto muito (para dizer tudo) está ainda por fazer, pois a cada dia que nasce nascem com ele infinitas possibilidades, assim a imaginação e o engenho existam. O seu programa de rádio é a prova viva e audível de que assim é: um exemplo de criatividade.  Onde se não num programa de autor se poderiam ouvir bandas sonoras imaginárias para filmes de grandes cineastas do século XX como Hitchcock ou Truffaut?

Já o escrevi em tempos: a Antena 2 é um reduto. Um refúgio do horror a que a generalidade dos media se dedica, com a mesma fúria com que o neoliberalismo consome os recursos das nações e as vidas dos povos. Um reduto que apenas o Serviço Público parece poder assegurar. Na mesma lógica, linha editorial e entendimento do que pode e deve ser um serviço público capaz de oferecer alternativas à mediocridade, também a RTP2 é um reduto, um refúgio para todos os que procuram apreender o Mundo para além das fronteiras da informação (caseirinha e de horizontes curtos, no paradoxo de sê-lo em plena era digital global) de sentido único e do entretenimento televisivo emburrecedor dos espíritos.

A ver vamos do que a RTP3, com as recentes contratações de jornalistas e comentadores “subtraídos” à cada vez mais miserável SIC-N, vai ser capaz. Aquisições novas que contudo, e lamentavelmente, antecederam a resolução de um problema a que nalgum ponto será preciso acorrer: a da necessária regularização da situação dos «muitos trabalhadores precários a recibo verde, sem os quais seria impossível manter a funcionar o Serviço Público de Rádio e Televisão de Portugal» (DN).

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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