PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Adília pela manhã cheia de graça

adilia_lopes_1969

 

Abril de 2014. Parece ser esta a data da entrada mais antiga de Manhã, o mês em que Adília Lopes terá iniciado algo parecido com um querido diário, subordinado (na medida em que um poeta pode ser subordinado, naturalmente) à memória pessoal de outros tempos: os da infância e juventude, numa Lisboa que já não existe, num país e num Mundo também eles necessariamente desaparecidos (apesar das aparições em que teimam). Adília terá pois escrito Manhã – ou, enfim, os textos que o livro agrega – ordenando flash-backs assinados entre Abril e Novembro de 2014. Ontem, portanto, enquanto olhava para anteontem. Um querido diário que serve, assim, para inscrever não apenas uma poética como também um tempo: o século XX, evocado através das pessoas e lugares de Adília.

Eis, numa pazada deliberadamente desarrumada e necessariamente incompleta, alguns desses condutores da memória: Campo de Ourique, Arroios, o Bairro das Colónias, o Chiado, Colares, ou ainda, subindo perigosamente em direcção a Espanha, Penamacor, e, se continuando a subir, Bruxelas. Entre as pessoas de Adília, escolho referir aqui a avó materna, a mãe (menos materna que a avó), Miss Helen (uma explicadora-fumadora), o senhor Afonso (Henriques), a tia Sara que era divorciada. Mas também David Bowie. Ou Proust, ali a espreitar na Manhã de Adília através da porta entreaberta do quarto onde passa os dias deitado. Pessoas que (se) atravessam (n)o livro de Adília, numa aparente promiscuidade com as suas (dela) confidências – isto é, a narração de assuntos privados cuja revelação, contudo, não é total, mas apenas sugerida, entrevista, como um espelho lá longe de nos vermos (todos) naquilo (e é nessa universalidade, também, que Adília é sem dúvida uma clássica).

Poetisa maior de uma poesia que já vai deixando de ser nova embora não tenha ainda sido consagrada (também por serem os júris dos prémios de edição e concursos de poesia ainda constituídos por puristas de cabeças velhas que não gostam do verso branco e da “brejeirice” feminina), e apesar dos tantos novos leitores das gerações mais novas que a lêem como uma escritora do seu tempo (para dizer do tempo dos mais novos, gente nascida por exemplo na primeira metade dos anos 1990), Adília escreve com a perplexidade de hoje. Ou seja, com o espanto que os mais novos julgavam só seu e, sobretudo, dificilmente partilhado com uma mulher já um pouco antiga, como é o caso de Adília Lopes, aparecida ao Mundo em 1960.

Há uma história de amor entre Adília e as palavras. Entre Adília e a música das palavras. Entre aquela e o som e o significado destas. Uma quase fusão (senão mesmo nalguns casos total), que faz de Manhã uma infusão amorosa – um elixir para beber a qualquer hora, contra a quotidianidade horrorosa, espantando-nos ainda e sempre com os modos como se pensa a si própria Adília (pensando-nos a todos). Adília no Universo enorme, olhando-o para escrever nele, e passe-se a redundância, ‘pequenos haikus’ que fixam com máxima parcimónia as visões únicas da poetisa entregue à contemplação da memória da Vida e de tudo o que há nela. Tudo como por exemplo o quê? Árvores amigas dela (de Adília, pois). Ou as suas primeiras leituras. Ou as narrativas (nem sempre sobejamente engenhosas) da publicidade. Ou remixes de quadros da História da Pintura. Ou uma versão adiliana de Os meus Prémios, de Thomas Bernhard (ainda mais miserável, claro, honrando os pergaminhos de miséria da Pátria – Prémios, 15/8/14).

Manhã é um auto-retrato. De Adília e dos portugueses. Pintá-lo equivaleria a pintar um baile à moda de Paula Rego, dan(s)ado por muitas pessoas, umas mortas (e entre elas, Sophia) e outras vivas. Um baile matinal, não há melhor.

 

manhã_adilia_lopes_a&alv

Manhã, Adília Lopes
Assírio&Alvim, 2015

 

Na imagem: Adília Lopes na entrada do antigo Cinema Europa, em Campo de Ourique
Anúncios

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 1 de Março de 2016 by in Cultura, Livros, Mesinha de cabeceira, Patrícula elementar, Portugal imortal and tagged , , , .

Navegação

%d bloggers like this: