PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Oblomovite

 

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Thomas Piketty, no seu monumental ensaio de economia política O Capital no Século XXI (Editions du Seuil, 2013, ed. portuguesa Temas & Debates, 2014), demonstra que, mesmo no mundo pós-lehman brothers, pode haver mais vida para além da crise. E aproveita os longos romances de Balzac e da manas Brontë para relembrar a boa vida da sociedade rentista do século XIX. Baseada na então garantida propriedade fundiária, distingue-se da actual sociedade rentista na exacta medida em que as rendas, hoje em dia, residem em esotéricos fundos de investimento, sedeados em exóticos paraísos fiscais, como a confederação Suiça, o grão-ducado do Luxemburgo, a república da Irlanda ou a cidade-estado de Singapura.

É claro que a Piketty interessavam muito mais, sobretudo por razões de proximidade estatística, as sociedades imperiais do centro da Europa, restauracionista num caso, vitoriana no outro. Há que dizer, contudo, que não se tinha perdido nada se tivesse dedicado algum tempo ao injustamente menos conhecido Ivan Gontcharov, autor deste peculiar livro que a Tinta da China finalmente editou em portugês de Portugal.

Oblomov, o anti-herói do nosso romance, é um pequeno senhor feudal que vive em São Petersburgo e vê o mundo através do seu boudoir, rodeado por uma criadagem tão escassa, quanto fiel e submissa como os velhos rafeiros com medo de perder o único dono que conhecem. É tão preguiçoso que prefere dormir a sesta, a supervisionar as suas fontes de rendimento, lá longe, no campo, onde o seu estaroste e os seus mujiques todas as colheitas se aproveitam da sua acomodada ausência. Depois de algumas peripécias de amor platónico com uma senhora da sua condição, resignar-se-à a amar o filho natural, fruto de um despreocupado concubinato com a senhoria, uma plebeia que cozinha como ninguém e involuntariamente lhe exibe uns cotovelos carregados de feromonas sexuais.

Lá mais para o fim acabará morto no sofá, abraçado à própria morte como se ela fosse o melhor da vida. Na Rússia dos románofes, a oblomivite acabaria por se transformar, não num simples adjectivo, mas num substantivo que ainda hoje perdura na cultura popular russa como sinónimo de preguiça. Pois, como diria Tomás de Aquino, santo católico que os russos provavelmente desprezam, a preguiça é a mãe de todos o pecados. Mortais.

Não esquecer, todavia, que se trata de um romance russo do século XIX. O tijolinho, embora agradável ao tacto, contém longos diálogos amorosos que podem, com muito proveito, ser rapidamente digeridos em diagonal, segundo a popular técnica gourmet entre nós vulgarizada pelo professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Ainda por cima, a Tinta da China deu-se ao invulgar luxo de editar um livro que sabe bem só de ver no prato. Um verdadeiro prazer para o palato. Que vos faça bom proveito.

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Oblomov (1859), de Ivan Gontcharov

Tinta da China, 2015
Colecção dirigida por Ricardo Araújo Pereira
Tradução e notas de António Pescada

Imagem: Oleg Tabacov no papel de Ilya Ilyich Oblomov, no filme com o mesmo nome de Nikita Mikalkov, Mosfilm, URSS, 1980
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This entry was posted on 28 de Fevereiro de 2016 by in Cultura, Livros, Mesinha de cabeceira and tagged , , , .

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