PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Violência xenófoba está a tornar-se insuportável na Alemanha

Kai Littmann/Eurojournalist

Talvez fosse boa ideia reerguer o muro de Berlim e voltar a dividir a Alemanha em dois países. Pois o que se passa no leste alemão por estes dias é simplesmente uma vergonha. A violência dos xenófobos e neonazis ultrapassa todos os limites e, uma vez que os poderes políticos locais e as polícias fecham os olhos perante todos os excessos de violência, talvez fosse realmente melhor reestabelecer a RDA, por meio de uma longa vedação de arame farpado a toda a volta e, sobretudo, recusando os refugiados do leste alemão que pretendessem passar para a parte oeste para abusar dos sistemas sociais da outra Alemanha.

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A águia alemã com as asas em chamas Foto: Kürschner / Wikimedia Commons / PD

 

Clausnitz é uma aldeia de 870 habitantes situada não muito longe da cidade de Chemnitz e na proximidade da fronteira germano-checa. Uma aldeia perdida na paisagem, que o Mundo continuaria a ignorar acaso não tivessem ali ocorrido incidentes especialmente graves durante o passado fim-de-semana. Um autocarro transportando refugiados foi ali esperado por cerca de uma centena de xenófobos agressivos e perguntamo-nos como raio tiveram eles conhecimento da chegada daquele autocarro. Será que o director do centro de acolhimento, Thomas Hetze, teve alguma coisa a ver com isso? Afinal, espantamo-nos que um homem com cartão do partido xenófobo AfD possa ocupar tal cargo – quem mais poderia ter tido acesso a tal informação e quem mais poderia tê-la passado aos xenófobos locais, que compareceram à hora prevista da chegada do autocarro? É certo, Thomas Hetze (cujo apelido significa «discurso do ódio»…) declarou não ter informado ninguém da hora da chegada dos refugiados. Resta saber quem acredita nele – os manifestantes convergiram para ali por mera coincidência, claro…

À chegada do autocarro, cerca de cem manifestantes cercaram-no, adoptando uma atitude agressiva, proferindo insultos e intimidando de tal forma os refugiados que estes se recusaram a sair do autocarro. Foi então chegada a hora de a polícia intervir. O que aconteceu, tendo-se a polícia, como muitas vezes sucede na Saxónia, enganado de alvo. Em vez de mandar dispersar os xenófobos e neonazis, a polícia tratou de obrigar os refugiados – entre eles, crianças assustadas – a sair á força do autocarro, sob fortes aplausos da multidão excitada.

Desde esse dia, a polícia tem procurado explicar o inexplicável. Assim, o chefe da polícia de Chemnitz, Uwe Reißmann, tentou inclusive justificar a intervenção policial indicando ter sido aberta uma investigação à mesma – visando não os xenófobos e neonazis, nem tão pouco os agentes que decidiram atacar as crianças refugiadas, mas antes os próprios refugiados a quem a polícia aponta o dedo por terem filmado a cena com smartphones, acusando-os também de ter feito um dedo de honra aos neonazis. Temos assim que, na Saxónia, o direito à imagem dos neonazis prevalece sobre o direito à segurança dos refugiados. No mesmo dia, horas depois, ainda e sempre na Saxónia, um centro de acolhimento (felizmente ainda não ocupado) foi incendiado, uma vez mais perante os aplausos de uma multidão de gente visivelmente alcoolizada.

Somos levados a constatar que a incapacidade de a política elaborar e fazer aplicar leis de verdadeira protecção aos refugiados e exilados encoraja este tipo de acções violentas contra outros seres humanos. O facto de o mundo político adoptar cada vez mais um discurso de ódio e de discriminação acrescenta força e razões a esta escalada de violência. O leste alemão, essa região a que em tempos chamávamos a RDA – mas também o “vale dos ignorantes”, porque não captavam a televisão da RFA – mostra-se aparentemente digna dessa apelação. Se a “Willkommenskultur” [as boas práticas de acolhimento aos imigrantes] foi o momento alto da Alemanha em 2015, o novo ano de 2016 arrisca-se a ficar para a História como o ano da vergonha.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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