PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Incomoda-me

A tão escassa conta em que a futura líder do nosso partido democrata-cristão com representação parlamentar tem as crianças dos recreios das nossas escolas.

Eu explico o contexto, apanhado de raspão um pouco antes das seis da tarde, na TSF, enquanto procurava algo musical para ouvir no regresso a casa depois de umas sessões de vida na Idade Média e relações feudo-vassálicas para jovens adolescentes agitados.

No Parlamento, na sua intervenção final sobre o OE, Assunção Cristas (em cuja doçura e graciosidade eu depositava tantas esperanças, depois de toda aquela assertividade do Grande Líder de partida) decidiu comparar o Orçamento para 2016 “àquela asneira feita no recreio da escola que nenhuma criança assume ter feito” [quase sic, a TSF tem uma versão ligeiramente diferente, mas em defesa de alguma imprecisão minha na citação direi que estava distraído com a forma criativa como os meus colegas automobilistas recriam as regras de circulação nas rotundas. Para melhor, consultem-se as actas ou a gravação da sessão].

Ora bem.

Eu sei que a Assunção não é nenhuma filha de Rousseau (por questões eminentemente cronológicas, embora não só) e por isso não acreditará, pela via do bom selvagem, na bondade natural do ser humano que só a sociedade corrói.

Mas sempre esperava mais da sua crença na honestidade de, pelo menos, algumas crianças do recreio da tal escola. A menos que ela estivesse a pensar no caso de uma escola pública em terra de esquerda, com pais e professores todos de esquerda e, por via disso, com a petizada já devidamente corroída pela sociedade e incapaz de um acto de coragem e responsabilidade em assumir as suas malfeitorias.

Apesar disso, dessa possibilidade explicativa, confesso que a coisa doeu no meu âmago, porque tenho ainda um pouco de criança em mim (quero acreditar que são os 25 quilos que carrego em excesso para a minha altura) e senti-me magoado pela tão pouca confiança que a tão católica Assunção demonstra ter nas crianças que, já dizia a cantora, são o nosso futuro. Até porque a tomar como boas as suas palavras, certamente certificadas pela Verdade inspirada do Alto (mais inspirada só a  Verdade de um césardasneves ou de um arroja quando fala da mãe e de pénis made by the hand of God himself), o futuro se afigurará muito negro. De esquerda, portanto. Como o Orçamento.

Cristas

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About Paulo Guinote

Professor quando me deixam. Investigador quando posso.

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This entry was posted on 23 de Fevereiro de 2016 by in Linha de desmontagem, Patrícula elementar, Política nacional, Portugal imortal.

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