PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

No fundo

cynan_jones_by_Tif Hunter

Deixo desde já uma sugestão: que se leia este livro de Cynan Jones ‘de enfiada’, isto é, numa só leitura. Não podendo ser, leia-se A Cova em dois momentos próximos. É que há uma tensão (cheiros, cores, temperatura) que o esquecimento entre momentos de leitura demasiado distantes pode em certa medida atenuar, ou até mesmo anular, o que seria uma pena – e também um desperdício da arte do escritor em manter-nos no território mental da história que nos conta.

Em A Cova, Cynan Jones (País de Gales, n. 1975) mostra-nos o mistério insondável da vida (de toda a vida), a sua incerteza, força bruta, debilidade, beleza, tragédia. Mostra-nos o que nas cidades tendemos a esquecer quando, mergulhados no positivismo já um pouco nauseabundo em que nos fizemos deuses, persistimos numa imortalidade risível, afastando-nos, também, da nossa condição animal.

Jones mostra-nos, por exemplo, a demarcação (para dizer a posse sobre as terras, um direito que, no território rural, tem uma forma muito diferente das fronteiras existentes nos prédios de albergar pessoas umas por cima das outras), os ciclos da Natureza (e a escultura metamórfica do Tempo), e muito do que nos campos se sabe mas nas cidades se ignora, e de que faço neste ponto emergir uma ideia-chave: a de que a própria terra é um ser vivo.

Mas Cynan Jones mostra mais em A Cova: que há homens grandes cuja humanidade é inversamente proporcional ao seu volume. Que as mães rurais, por vezes um pouco enfiadas em si mesmas, são gentis sem sentimentalismo, fiáveis e funcionais, transportando no que são as melhores e mais tradicionais mães do Mundo. Que o mundo rural que temos vindo a abandonar (não importa se fica no País de Gales se em Portugal) regurgita de vida e talvez um dia destes expluda, para fazer-nos lembrar que vimos todos de lá, que somos todos de algum campo, a que nalgum ponto talvez seja preciso voltar.

E Jones mostra, diz tudo isto com tal mestria literária que até nós, os da cidade, percebemos. Percebendo também que no fundo (e a literatura trata sempre do fundo) somos anteriores à História e demais narrativas construídas pelas civilizações. Sendo o escritor não apenas capaz mas especialmente brilhante a descrever coisas densas (sentimentos, paisagens, etc.) com frases limpas e concisas. Nem uma palavra a mais, denotando nisso aquela que é uma tarefa especialmente difícil do ofício do verdadeiro escritor: a do desbaste que liberta a linguagem de todo o excesso, transformando até mesmo o que é excessivo (o sofrimento demasiado e a selvajaria, por exemplo) em algo sucinto e quase de menos. E nisso Jones é brutal – em sentido literal, mas também valorativo.

Por todas estas razões, custa ler A Cova e depois ter de sair dela. Há qualquer coisa em nós, suscitada pelo escritor, que nos prende à história do livro como a um lugar que nos é familiar. Um lugar que, no entanto, talvez não pudesse jamais ser português, porventura nem mesmo se sendo (d)escrito por um escritor da Cova da Beira ou provindo de uma interioridade e/ou de um isolamento portugueses. A não ser que fosse açoriano, dessa insularidade, desses afastamento e solidão, mas ainda assim hesito em afirmá-lo com convicção. Porque o território de onde este livro emana, embora contendo a ancestralidade e a universalidade anteriormente referidas, é um lugar concreto, com a sua dureza própria e, nesse sentido, A Cova é literatura de lá, do País galês.

Tradução competente, na justa contenção que o texto original parece pedir.

Sobre a história, reservo-me de fazer aqui qualquer sinopse. Leiam.

 

A_Cova
A Cova (The Dig, 2014), Cynan Jones
Prémio Jerwood Fiction Uncovered 2014
Prémio Wales Book of the Year Fiction Prize 2015

Cavalo de Ferro, 2016
Tradução de Rita Carvalho e Guerra

Imagem: Cynan Jones (c) Tif Hunter

 

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 21 de Fevereiro de 2016 by in Cultura, Livros, Mesinha de cabeceira, Patrícula elementar and tagged , , , .

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