PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Devagar se vai ao longe

 

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A Relação de Lisboa marcou a data limite para acusação ou arquivamento do ‘Processo Marquês’ até às 23:59 horas do dia 19 de Outubro de 2015. O Ministério Público, apoiando-se na jurisprudência do Supremo sobre casos de especial complexidade, já dera a entender que o seu entendimento sobre o prazo seria substancialmente diferente e não contava cumpri-lo antes de 2016, não especificando se na Primavera, se no Verão ou até mesmo se mais perto do Natal.

Na altura, ou seja, há precisamente quatro meses, o evento ainda deu assunto para algumas rábulas jornalísticas, debates e comentários mais ou menos jurídicos, mais ou menos políticos, mais ou menos enfadonhos, e para os indignados advogados da defesa poderem deixar bem claro que — “Deixar esgotar o prazo do inquérito, sem acusar ou arquivar, é um escândalo e é uma vergonha para a Justiça.”

Justiça seja feita, como dizia o meu avô materno, camponês mais letrado que o habitual no nordeste beirão — “passa o dia, passa a romaria”. Este passar da mesmíssima procissão, com os mesmo andores dos mesmos santinhos nos mesmos adros, na minha opinião mais ou menos jurídica, convém tanto à defesa como à acusação. Se a esta, à falta de melhores provas que as notícias cirurgicamente plantadas nos pasquins, a dilação temporal servirá para amortecer a queda quando tiver que arquivar o processo, àquela o simples deixar correr do marfim, só por si, é a melhor garantia que a coisa não dará basicamente em nada. Isto, porque a experiência da vida nos garante, quer a mim quer à defesa, que este arrastar ad nauseam dos processos especialmente complexos tem sempre um de dois finais felizes: ou são pura e simplesmente arquivados, ou chegam a julgamento e apenas servem para que o colectivo de juízes sugira ao MP que deveria ter vergonha em apresentar um caso tão mal enjorcado. Como, por exemplo, aconteceu com o famigerado “Caso dos Submarinos” que, ao fim de anos de especiais complexidades e intermitentes arruaças na imprensa, também acabou em águas de bacalhau, só para ter a oportunidade de usar esta metáfora marítima tão acarinhada pelo palato português.

Enfim, nas semanas seguintes ainda houve algum foguetório, meia-dúzia de ‘fugas’ avulsas para a imprensa especializada nestes eventos jurídico-políticos e, ‘prontos’, a teta secou por completo. Meteram-se as compras de Natal, o bacalhau e as couves da consoada, os festejos do ano novo, o Marcelo’s reality show e a coisa lá foi, placidamente, esmorecendo. A tal ponto que, no dia das eleições presidenciais, quando as atoleimadas televisões insistiram em filmar o senhor engenheiro no cumprimento do seu inalienável dever cívico, a maioria dos telespectadores, à falta de melhor, rapidamente zapou para os aconchegantes anúncios do cálcio para os ossos com a senhora dona Simone.

Até o Correio da Manhã, esse arauto da justiça popular tailor made, já deixou morrer o assunto por manifesto desinteresse dos leitores dos cafés e pastelarias onde se reúnem, logo pela manhã, sete dias por semana, todos os reformados, desempregados e beneficiários do rendimento mínimo garantido para alongadas discussões proto-jurídicas sobre a despachada Lei de Lynch dos filmes de cóbois que, uma vez por outra, ainda passam no canal Memória.

Em compensação, o Sol, o semanário do sobrevivente arquitecto-jornalista-doutor Saraiva, um e outro já muitos furos abaixo nos seus prolongados ocasos, aflito com a inexorável quebra de vendas e à falta de melhor ‘caxa’ para encher o chouriço, resolveu hoje, talvez para assinalar os exactos quatro meses sobre a extinção do prazo legal para a acusação ou o arquivamento do “Processo Marquês”, chamar o Sócrates, o Proença e o Camões à primeira página. Parece que sobre um negócio de rádios e jornais angolanos, o que dá sempre um frisson adicional a qualquer samba-enredo.

(Dei-me ao trabalho de perguntar à minha dealer de tabacos, mortalhas e jornais se alguém lhe havia comprado o Sol. Respondeu-me, lamentosa, que até vendia o Benfica uma vez por outra, mas que o Sol nem pensar, isso é que era bom, iam de volta exactamente como vinham na carrinha da distribuição, excepto é claro o que ficava ao Sol e à chuva do lado de fora do quiosque e que era devolvido aparentemente manuseado, mas que era mentira, na verdade ninguém lhe tinha sequer lido as ‘caxas’ de capa, excepto eu que sou ainda mais implicativo que os pseudo-jornalistas do Sol.)

E assim vai Portugal. Uns vão bem, outros mal. E outros não sabem que mais fazer à vida para vender os pasquins onde ainda mantêm uma aparência de trabalho. Percebe-se. Isto não está fácil. Mas ainda há regras. Tem que haver. E­ — mandam as regras mais básicas do convívio humano que — não havia necessidade de meter o bom do zarolho nestas merdas. O homem está morto, que diabo. Já não se pode defender. O senhor arquitecto-jornalista-doutor Saraiva que tenha dó. Ou, então, que se vá foder. Com todas as letras e chamadas de capa mais adequadas à circunstância.

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This entry was posted on 20 de Fevereiro de 2016 by in Jornalismo, Patrícula elementar and tagged , , .

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