PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Cimeira Europeia: as exigências da Grã-Bretanha

Kai Littmann/Eurojournalist

 

O Primeiro-ministro britânico, David Cameron, andou em tournée pela Europa a tentar reunir apoios para a chantagem que consiste em negociar uma série de vantagens particulares para a Grã-Bretanha sob a ameaça do Brexit, isto é, a da saída do Reino Unido da União Europeia. Antes de as negociações da Cimeira Europeia começarem em Bruxelas, quatro aspectos emergiram. Ei-los em traços muito gerais.

  • A livre circulação dos europeus

Nesta matéria, a Grã-Bretanha quer, nem mais nem menos, abandonar o princípio europeu que prevê que todo o cidadão-membro de um Estado da UE tenha a possibilidade de se instalar e de trabalhar em qualquer outro país da União, beneficiando dos mesmos direitos que os habitantes desse país. A Grã-Bretanha quer abandonar esse barco e recusa prestar apoio social e os comuns direitos de integração aos oriundos de outros Estados-membro.

  • Sem euro, mas com os mesmos direitos dos países da zona euro

Claro, a Grã-Bretanha manterá a sua libra esterlina. Está no seu direito, mas a Grã-Bretanha quer também aceder aos mesmos direitos que os Estados-membro da zona euro, sobretudo em matéria legal. Ou seja, deve ler-se: “Não queremos participar no vosso clube mas queremos decidir as suas regras.” Provavelmente, é necessário ser britânico para compreender esta atitude.

  • Menos burocracia

Trata-se de um tema eterno. A Grã-Bretanha quer reduzir a regulamentação europeia para poder reduzir o aparelho administrativo da UE. Se o princípio de “menos administração” não é para rejeitar em bloco, já a proposta do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que sugeriu a Cameron que repensasse a regulamentação supérflua, levanta várias questões. E, desde logo, a de tentar perceber o que vem a ser uma “regulamentação supérflua”. Mas também, e a ser assim, a de nos questionarmos sobre as razões por que foram esses textos supérfluos elaborados, e ainda por cima votados por maioria.

  • A integração europeia

Os tratados europeus referem uma «união entre os povos europeus que aspira a ser crescentemente solidária”. Mas este postulado terá deixado de ser válido para a Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha já não tem vontade de contribuir para esta união dos povos, e Donald Tusk encontrou a reformulação perfeita para aceitar essa decisão: “encontrar vias diferentes para a integração”. A Grã-Bretanha exige uma declaração escrita onde fique bem claro que não terá de continuar a contribuir para essa integração política (caso para perguntar se alguma vez o fez). Não se percebe: como fazer parte de uma associação sem aderir aos princípios fundamentais que a regem?

Para além da questão dos refugiados, o Conselho da Europa terá a difícil missão de dizer “Não” a David Cameron e de deixá-lo organizar o seu Brexit. Mas se a Grã-Bretanha quer deixar a UE, então que leve consigo os Estados do grupo Visegrad. Nestes tempos difíceis, a UE não precisa de membros que sabotam o projecto comum, ao mesmo tempo que pretendem beneficiar ao máximo das subvenções de Bruxelas. Daí que talvez o melhor fosse mesmo que todos os descontentes que não querem contribuir de forma construtiva para um projecto que será sempre, é certo, imperfeito, o abandonassem o quanto antes.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 19 de Fevereiro de 2016 by in Eurojournalist, Europa, Política internacional and tagged , , , , , .

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