PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Quem tem medo de Bernie Sanders?

Nima Taradji Photography 01
Durante uma alocução de campanha de Bernie Sanders na Universidade de Chicago, Illinois © Nima Taradji Photography

 

Bernard Sanders (n. 1941), descendente de um imigrante polaco, nasceu em Brooklyn, Nova Iorque. Em 1962, quando era estudante universitário em Chicago, liderou um movimento pela igualdade racial que lutou também pelo fim da segregação resultante do valor das rendas da habitação facultada pela Universidade de Chicago (proprietária desses imóveis) aos estudantes que eram alojados fora do campus universitário. No ano seguinte, Sanders meteu-se num autocarro com outros activistas e foi a Washington pela primeira vez, onde testemunhou o famoso discurso de Martin Luther King que começa por I have a dream.

Em 1972, candidatou-se a um lugar no Senado de Vermont e iniciou a sua carreira na política. Em 1981, concorreu como independente e arrebatou a eleição para a presidência da câmara de Burlington, a maior cidade do Estado de Vermont, sendo reeleito com 52% dos votos em 1983 – mobilizando vastas novas camadas de eleitores e entregando as vereações e outras chefias a jovens progressistas. Em 1984, Sanders fez passar a Burlington Community Land Trust, a primeira lei municipal que tornou a habitação acessível um direito de toda a população. Sanders teria nas mãos os destinos de Burlington até 1989.

Os anos 1990 seriam de intensa actividade política e cívica: Sanders concorre ao Congresso e transforma-se no primeiro representante independente em quatro décadas. Seria reeleito pelo povo de Vermont por oito vezes. Em 1991, vota contra George Bush e a lei que permitiu a intervenção norte-americana com uso da força na Guerra do Golfo. Em 1992, é o primeiro signatário de uma proposta de lei relativa à criação de um programa de apoio à investigação contra o cancro, na sequência da qual a totalidade dos Estados federais criam um banco federal de dados para registo dos cidadãos atingidos pelo cancro e partilha de recursos para combatê-lo.

Em 1993, insurge-se contra o NAFTA (North American Free Trade Agreement), um acordo emanado da Administração Clinton e envolvendo o Canadá, o México e o Chile, em favor do comércio livre para as empresas norte-americanas que, ao abrigo daquele, tinham doravante o direito de fazer deslocalizações e contratações atentatórias dos direitos de trabalhadores, dentro e fora dos Estados Unidos. Em 1996, Sanders vota contra a discriminatória Defense of Marriage Act, uma lei que proibia os direitos federais a casais do mesmo sexo que haviam contraído matrimónio. A batalha seria ganha apenas em 2013.

Sanders enfrentou em 1999 as grandes corporações farmacêuticas, transformando-se no primeiro membro do Congresso a levar cidadãos idosos norte-americanos para além da fronteira com o Canadá, por forma a terem acesso a medicamentos de menor custo. A iniciativa seria replicada para pacientes com cancro de mama que, assim, puderam passar a adquirir medicação ao custo de cerca de uma décima parte do que era cobrado no território norte-americano. Ainda nesse ano, Sanders enfrentou o gigante IBM para tentar evitar um programa de redução (em 50%) do valor das pensões de reforma dos antigos trabalhadores da empresa. Nesse âmbito, tornou possíveis aditamentos à legislação então existente que inibiram o Governo federal de agir contra direitos e/ou fazer reverter contratos sociais anteriormente celebrados. Em resultado disso, Sanders conseguiu que cerca de 130 mil trabalhadores da IBM, entre activos e aposentados, acedessem a indemnizações compensatórias num montante que ascendeu a 320 mil milhões de dólares.

Cerca de dez anos antes de o crash de Wall Street lançar o Mundo numa recessão sistémica de que ainda não nos livrámos, Sanders votou contra uma lei que preconizava a reversão das políticas reguladoras da actividade financeira que haviam sido aplicadas depois da Grande Depressão. «Essa legislação», predisse Sanders na altura, «vai reduzir o número de bancos e outras empresas financeiras, aumentar as taxas aos consumidores e pequenos empresários, hipotecar o crédito à América rural e expor os contribuintes à bancarrota dos seus Estados. Em contrapartida, vai favorecer a emergência de novos mega-grupos económicos e levar a que um pequeno número de grandes empresas dominem o sector financeiro e as indústrias, levando a uma maior concentração do poder no nosso país». A lei 362-57 passou, e Sanders estava certo.

Em Outubro de 2001, votou contra a Patriot Act (a super lei anti-terrorismo que, na sequência do 11 de Setembro, alargou de forma absurda – em si-mesma considerada terrorista pelos mais críticos dos seus efeitos atentatórios da privacidade dos cidadãos – a margem de manobra dos serviços de segurança e vigilância nos Estados Unidos) por considerar que violava o princípio da liberdade. Um voto contra que renovaria em 2006 e em 2011. Sem surpresa, em 2002 Sanders opôs-se à invasão norte-americana no Iraque, alegando que acarretaria custos elevados: anti-americanismo, instabilidade e mais terrorismo. Estava certo, uma vez mais.

Em 2005, conseguiu fazer passar uma lei negando ao Governo federal o direito de construir uma base de dados exaustiva sobre os americanos. No entanto, a referida lei viria a ser anulada através de negociações de bastidores nos gabinetes. Em 2006, derrotou o homem mais rico do Vermont, Rich Tarrant, vencendo as eleições para o Senado norte-americano, que veio a integrar como independente pelo Partido Democrático do Vermont, com o apoio do Comité de Campanha dos Senadores Democratas.

As batalhas subsequentes de Bernie Sanders incidiram prevalecentemente em matérias que afectam o princípio da igualdade nos Estados Unidos, como sejam o acesso a bolsas de estudo (*) para os filhos das famílias desfavorecidas (2007), o financiamento público energético às famílias que, por terem baixos ou nenhuns recursos, não têm meios para aquecer as suas casas durante o Inverno (2008), a inibição, por decreto-lei apoiado também por um senador republicano, dos contratos de trabalho abusivos (falando de trabalho precário que se substitui aos despedimentos) praticados pelos bancos de Wall Street (2009), ou o acesso comparticipado a serviços médicos: lançado em 2009, tratou-se do Affordable Care Act, uma iniciativa-piloto extensível a todos os sistemas de saúde até 2017, que Barack Obama retomaria em 2010 para facultar o acesso aos cuidados de saúde a mais de 25 milhões de norte-americanos que também são filhos de Deus.

Reeleito para o Senado em 2012, Bernie Sanders anunciou em Maio de 2015 a sua candidatura à presidência dos Estados Unidos. Uma campanha que só agora começa a levantar voo, tendo vindo a sofrer um compreensível boicote por parte da maioria dos media norte-americanos que, controlados pelos poderes económico-financeiros aos quais uma possível eleição de Sanders faria grande mossa, a têm ignorado – dedicando-lhe uma muito questionável omissão de informação.

(*) «Os Estados Unidos dos anos 2010 caracterizam-se antes de mais por uma desigualdade recorde dos rendimentos do trabalho (mais elevada que em todas as sociedades observadas na História e no território, incluindo sociedades caracterizadas por fortíssimas disparidades ao nível das qualificações). (…) O facto mais impressionante é que os Estados Unidos se tornaram indiscutivelmente mais desiguais (…) que a Europa no seu conjunto durante o século XX e neste início de século XXI (…). A desigualdade norte-americana dos anos 2010 é, de um ponto de vista quantitativo, tão extrema quanto aquela que caracteriza a velha Europa por volta de 1900–1910, porém a sua estrutura é bastante diferente. (…) O aumento das desigualdades nos Estados Unidos explica-se em larga medida pelo aumento sem precedentes da desigualdade dos salários, e em particular pela emergência de remunerações extremamente elevadas no topo da hierarquia dos salários, nomeadamente entre os quadros dirigentes das grandes empresas. (…) Não restam dúvidas: o aumento das desigualdades salariais explica-se pelo facto de os Estados Unidos não terem investido suficientemente no ensino superior, ou, mais precisamente, por terem deixado de fora do esforço de formação uma grande fatia da população, em particular devido ao custo das propinas excessivas pedidas às famílias. Só reinvestindo sem reservas na formação, e garantindo o acesso do maior número possível de pessoas à universidade a tendência poderá ser invertida. (…) Considerando o fortíssimo aumento do valor dessas propinas nas universidades norte-americanas durante os anos 1990–2010 – progressão que aliás seguiu de perto a dos rendimentos norte-americanos mais elevados –, tudo leva a crer que os indicadores de reprodução intergeracional observados nos Estados Unidos no passado irão agravar-se ainda mais nas próximas gerações. (…)». O capital no século XXI, Thomas Piketty (Temas&Debates, 2014)

 

Nima Taradji Photography 02
Durante uma acção de campanha de Bernie Sanders em Eldridge, Iowa
© Nima Taradji Photography

 

[Fonte principal dados biográficos e do percurso político: Página Oficial da Candidatura de Bernie Sanders]

Actualização (17FEV2016, link) relativa às declarações de Thomas Piketty sobre Bernie Sanders.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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