PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Schäuble e os juros da dívida portuguesa

O vídeo é ilustrativo. Qual a razão por que Schäuble enfatiza a referência a Portugal, omitindo os casos de Espanha e Itália? Certamente, no sujo jogo da ‘realpolitik’, é-lhe mais fácil focar-se num país ultraperiférico, com apenas o triplo da população da cidade de Berlim (esta tem 3,5 milhões de habitantes), quando considerado no conjunto de sociedades europeias.

A meu ver, outro motivo justifica a arrogância: a divergência ideológica. Vencida em duas guerras no século XX, a segunda das quais em 1945 (Maio), a Alemanha jamais deixou de perseguir o objectivo de se transformar numa potência dominante europeia. Conseguiu-o através da conversão de derrotada em vencedora, através do Plano Marshall, e também da deliberada minimização de beligerância contra alvos das estruturas industriais da guerra proporcionadoras de reversão industrial facilitada. No pós-guerra (*), em 1953, e como tem sido argumentado exaustivamente, a Alemanha, um país de continuados conflitos desde os tempos da Prússia, beneficiou de metade do perdão de dívida e de condições especiais e favoráveis de pagamentos de juros, indexados ao PIB.

Com este passado histórico, estímulo para a falta de respeito e para o uso da arrogância, o ministro Schäuble, sem pejo, dá a entender ao Mundo (é necessário que existam muitas SIC’s-N neste planeta globalizado, para defender e fazer acreditar na tese) que Portugal é, no momento em que vivemos, o responsável pelo aumento, a nível internacional, de juros da dívida pública. Até onde chegam os topetes a que o Ministro germânico se atreve!

Certamente para sua decepção, hoje os juros de dívida portuguesa a 1o anos tiveram um movimento descendente de 4,2 para 3,7% – neste ‘site’ é referida a taxa de 3,589%. E para lhe tornar mais incómoda a azia (azia, sensação de queimadura ou ardor no peito, na região retrosternal inferior, é um dos sintomas mais comuns da Doença do Refluxo Gastro esofágico), o ministro Schäuble tem mesmo de recorrer a dose reforçada de eficaz anti-ácido, a fim de combater a causa do mal-estar por, afinal, os juros das obrigações portuguesas não estarem ao nível que lhe agradaria. De facto, acicatado com esta notícia da posição da DBRS, o Sr. Schäuble e mais uns quantos lusos ‘laranjas’ sentiram o suco gástrico a disparar um PH anormal – tanto quanto eles desde a eleição do Governo de António Costa, sublinhe-se.

Claro que, em matéria de juros, acções, petróleo, cobre e outras matérias-primas, tudo é volátil em temos de valores e mercados. Mas, infelizmente, devido a todo o tipo de limitações (económicas, financeiras e ausência de força política na UE), Portugal, que não é sequer soberano em domínios de que irracionalmente abdicou, não dispõe de poder para corrigir as cotações do mercado global. O Sr. Schäuble sabe disto, sendo, portanto, ainda mais graves as suas afirmações públicas, proferidas intencionalmente com o objectivo de prejudicar o nosso país – ou para, cobardemente, admoestar Espanha e Itália.

(*) Ver a este propósito Pós-Guerra – História da Europa desde 1945, de Tony Judt

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