PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

PPD/PSD: always Coca-Cola

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Decididamente, a direita saiu de moda. Se nos EUA o ‘socialista’ Bernie Sanders corre o risco de ser candidato a presidente da República, entre nós Rebelo de Sousa fez-se eleger como “a esquerda da direita”. Nesta singular conjuntura política, onde até o PS conseguiu convencer o velho PCP a apoiar o governo do tempo-novo, não admira que o CDS se diga do centro e o PSD social-democrata. Sempre.

Reza a lenda que Sá-Carneiro, não o poeta, mas o político, era um grande social-democrata. Vamos lá ver. Sá-Carneiro nasceu para a política no seio da União Nacional, o partido único do Estado-Novo. Após o realinhamento causado pela intempestiva queda de uma cadeira-de-praia que já vira melhores anos-de-chumbo, 30 ‘jovens deputados’, encabeçados por António Pinto Leite, que morreria prematuramente, criaram um agrupamento ‘fora da caixa’. Talvez para densificar o conceito de ‘Primavera Marcelista’, oportunamente criado pelo novo presidente do conselho, prestavam-se estes irreverentes jovens a certas e inauditas liberalidades políticas. Como é natural, o regime nunca os levou muito a sério. Deles deixou dito André Gonçalves Pereira, em 1971, numa carta a Marcelo Caetano: “Quanto aos liberais, coitaditos, o seu principal defeito é não terem força nenhuma, para além de natural e legitimamente quererem fazer propaganda pessoal”.

Temos, portanto, que os futuros fundadores do PPD (Sá-Carneiro, Pinto Balsemão, Magalhães Mota e Miller Guerra) eram tidos por liberais. Embora se deva acrescentar, em abono da verdade, que Sá-Carneiro teve a ousadia de se afirmar social-democrata numa entrevista com Jaime Gama, ao diário A República, em 1972.

Logo a seguir aconteceu o 25 de Abril, sempre, e estes quatro (e mais alguns) criaram o PPD, logo a 6 de Maio (embora apenas legalizado em Janeiro de 1975). Aparentemente, foi o facto de haver uma pré-reserva para um Partido Cristão Social-Democrata e outra para um Partido Social-Democrata Português (este encabeçado por Adelino da Palma Carlos) que impediu o PPD de se chamar, desde logo, PSD. O que viria finalmente a acontecer, já em 1976, após aqueles dois putativos partidos se terem perdido nos sinuosos caminhos do PREC.

Vejamos o que dizia Sá-Carneiro, em 1975, sobre os estatutos do então PPD: “(…) poderão as sociais-democracias retirar o exclusivo do poder às minorias oligárquicas (…)? Não basta rejeitar as vias oferecidas pelo neocapitalismo e pelo neoliberalismo (…). Propomo-nos construir, não apenas uma simples democracia formal, burguesa, mas sim, uma autêntica democracia política, económica, social e cultural. (…) A democracia económica postula (…) o predomínio do interesse público sobre os interesses privados, a intervenção do Estado na vida económica e a propriedade colectiva de determinados sectores produtivos; pressupõe, ainda, a intervenção dos trabalhadores na gestão das unidades de produção. A democracia social (…) exige a abolição das distinções entre classes sociais e a redistribuição dos rendimentos (…)”

Se bem notaram, este programa temporão, vincadamente social-democrata, comporta um argumentário que cheira logo a marxismo-leninismo, do mesmo modo que o enxofre cheira sempre a satanismo. Não admira que o PSD tenha, sorrateiramente, tentado matricular-se na Internacional Socialista, no que foi impedido por um indignado Mário Soares, apelando às velhas amizades jacobinas com Miterrand, Willy Brandt, Olof Palm, Shimon Peres, etc.

Entretanto, Sá-Carneiro morreu prematuramente num ‘acidente’ aeronáutico (o que torna ainda mais bizarro o facto de terem dado o seu nome ao pacífico aeroporto da sua cidade natal). O PSD, esse, andou uns anos aos caídos, entre a manifesta falta de jeito de Pinto Balsemão e o indigesto bloco central de Mota Pinto. Até que, finalmente, na iminência de o novo presidente vir a ser o então playboy João Salgueiro, os barões mais conservadores do PSD convidaram o futuro Emplastro Silva a fazer a rodagem do seu Citröen JB-63-45 até ao congresso do partido, na Figueira da Foz. O resto é História e trinta ininterruptos anos de cavaquismo, apesar de alguns enganadores intervalos de governação PS, finalmente interrrompidos pelo advento da troika estrangeira, como dizia o internacionalista PCP antes de se aburguesar com o governo do Costa.

O último desses governos cavaquistas, encabeçado pelo pseudo-engenheiro Sócrates, acabou de chapéu na mão na sala de espera dos credores. São os insondáveis desígnios da banca. Rota. E, quando tal acontece no mundo dos sacrossantos mercados, não há social-democracia nem internacional socialista que nos valham.

Chegado ao governo, qual ‘D. Sebastião da Porcalhota’ a salvar a Lusitânia do caloroso abraço capitalista, o jovem Passos Coelho não hesitou em virar rapidamente à direita, como se lhe pedia, arregimentar o subserviente CDS e adoptar uma visão bem mais neo-liberal que o mainstream cavaquista, antes seguindo o modelo terceiro-mundista dos Boys de Chigago, grupo de jovens chilenos (e pinochetistas) que estudaram nos EUA com o neo-esclavagista Milton Friedman. Basta consultar a bem nutrida página do PSD na Wikipedia. Na secção ideologia, onde antes era associado à #social-democracia, é hoje associado ao #conservadorismo liberal, ao #conservadorismo fiscal (?!) e ao #neoliberalismo.

Tentar, agora, guinar rapidamente à esquerda, depois do enxovalho de não-ganhar-ganhando, seguindo finalmente os sábios conselhos da baronesa Ferreira Leite, claramente demonstrados pelo sucesso presidencial de Rebelo de Sousa, parece a melhor estratégia de sobrevivência que o dinheiro pode comprar. O que me faz logo lembrar o que aconteceu à ubíqua Coca-Cola no final do século passado.

 

 

Ao fim de quase cem anos de ‘follow the leader’, a Pepsi resolveu mudar de estratégia. Deixou cair a cola (chamava-se, até então, Pepsi-Cola), mudou de logo, de embalagem e de postura. Em 1975 lançou o Pepsi Challenge, uma prova cega onde demonstrava que o seu sabor era melhor que o da Coca-Cola. E, a partir de 1980, começou a ser muito mais cool com o conceito New Generation, onde pontificaram Michael Jackson, Lionel Ritchie, Michael J. Fox, David Bowie & Tina Turner, Cindy Crawford, Robert Palmer, Ray Charles, Madona, MC Hammer, etc.

Acossada, a reacção da Coca-Cola foi, numa inversão dramática digna de um blockbuster de domingo à tarde, seguir o novo líder. Mudou de embalagem, de logo, de sabor e até de marca e posicionamento — NEW COKE.

Tinha tudo para correr mal. E, naturalmente, correu. As vendas entraram em colapso, a crítica pateou, o público (velho e novo) achou a mudança — ‘preposterous’. Ou seja, impensável, contranatura, mais ranhosa que uma latinha gourmet para gatos que só aprenderam a ler em português. E foi preciso, tal Steve Jobs a salvar a Apple, in extremis, que o mesmo engenheiro-químico cubano Roberto Goizueta tivesse a clarividência de recuar, reagrupar e voltar a dar ao público a velha Coca-Cola de sempre. E qual foi a assinatura do relançamento da revelhada Coca-Cola em 1993? Pois foi, justamente, ALWAYS COCA-COLA.

Adivinhem, agora, qual é assinatura de campanha da recandidatura de Passos Coelho à presidência do PSD? Nem mais nem menos que SOCIAL-DEMOCRACIA, SEMPRE — “Não me vou reinventar, a circunstância do país é que mudou.”

25 Dabril, Sempre? Isso já era. Enjoy.

 

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CRÉDITOS: recandidatura de Passos Coelho à presidência do PSD, 2016; mural PPD-PSD, 1976; “Por uma Social-Democracia Portuguesa”, Francisco de Sá-Carneiro, Dom Quixote, 1975, pp. 42-44 (sublinhados nossos); jingle “Always Coca-Cola”, música de Jon Nettlesbey & Terry Coffey, letra e voz de Joey Diggs, 1993; cartaz PPD-PSD, 1976.

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