PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Portugal, um país que não quer saber dos seus escritores

thomas-bernhard-obernathal-1981-foto-dreissinger

«Depois de, durante cinco anos, não ter escrito nada e depois, num ano (1962), ter escrito Frost, o meu futuro tornara-se mais desesperado do que nunca. (…) Numa pensão de Frankfurt, que ficava numa das ruas de trânsito mais intenso (…) e era uma das mais baratas que estavam dentro das minhas possibilidades, refundi todo o livro (…). Levantava-me às cinco horas da madrugada e sentava-me à pequena mesa colocada junto da janela (…). Eu estava satisfeito com o meu livro, que saiu na Primavera de sessenta e três (…). Mas depois de passar a tempestade geral de críticas, extremamente violenta e inteiramente controversa, desde o elogio mais escrupuloso até à crítica mais acerbada e maldosa, fiquei de repente arrasado e como se tivesse caído numa cova horrível e onde só reinava o desespero. Eu julgava que iria sucumbir ao equívoco de que a literatura era a minha esperança. Não queria saber mais da literatura. Ela não me fizera feliz, antes me espezinhara e empurrara para a cova asfixiante e fétida, da qual já não havia fuga possível, pensava eu. Amaldiçoava a literatura (…) e empreguei-me como motorista de camiões (…). Morava em casa da minha tia e ganhava o meu dinheiro como motorista de camiões. Da literatura não queria saber mais, investira nela tudo o que tinha e ela havia-me, em contrapartida, lançado para aquela horrível cova. Enojava-me a literatura, odiava todos os editores e todas as editoras (…). Sentia-me feliz quando me deixava cair no assento do motorista com o meu casaco de couro (…) Mas naturalmente a minha felicidade (…) como motorista também teve o seu fim. De repente, passei a odiar a minha actividade e renunciei a ela, de um dia para o outro, e enterrei-me debaixo do cobertor do meu pequeno quarto em casa da minha tia. (…). Eu era só já uma caricatura extremamente lamentável de mim próprio e estava acorrentado à horrível infelicidade da minha existência, quando chegou o Prémio de Literatura da Cidade Livre e Hanseática de Bremen. Não foi o prémio em si que me salvou da catástrofe da minha (…) existência, mas a ideia de, com o montante de dez mil marcos que o prémio representava, dar um novo apoio à minha vida (…), torná-la de novo possível. (…)» | Thomas Bernhard, Os meus prémios (traduzido por José A. Palma Caetano), Quetzal, 2009

futuristika_thomas-bernhardın-bay-unseld’e-mektuplarından_05

Imagens: Thomas Bernhard em 1981 (c) Sepp Dreissinger e em 1971 (c) Erika Schmied

 

Conheço escritores que não escrevem porque estão submersos, todos os dias, em problemas prementes que os impedem de escrever. Problemas materiais, de provimento do mínimo necessário para se manterem dignos e com saúde, com um tecto, água, luz, comida. Conheço escritores assim, que submergem nisso, na aflição da sobrevivência. Levantam-se com um livro para escrever na cabeça mas depois esquecem-no, pois não há maneira de o escreverem enquanto não resolverem problemas que não têm nada a ver com a literatura mas que impedem que se realize. Passam o dia numa fona, de que não sai nenhum texto, quanto mais um livro.
Se tivessem maneira de passar algum tempo das suas vidas de escritores sem terem de viver assim, havendo todos os meses desse tempo dinheiro para a renda, para as contas e para comida, ou podendo até afastar-se de casa – da casa onde durante tanto tempo não conseguiram escrever –, talvez alguma coisa mudasse. Bastaria que um livro pudesse ser começado, ou, melhor ainda, publicado no termo desse tempo sem problemas de sobrevivência, para valer a pena.

Conheço outros escritores que, quando não têm esses mínimos, entram numa realidade paralela que os põe num lugar de escrever. A privação torna-os urgentes, o jejum do conforto mínimo age sobre eles como o bastão do mestre zen que, durante a meditação do discípulo, procura que o corpo deste mantenha o aprumo vertical da árvore, e o seu espírito a obstinação absoluta em gerar o vazio. Escrevem, então, independentemente do que lhes falte, com a verdade dessa carência e da lucidez que gera. Escrevem na solidão, escondidos (por vezes com vergonha de lhes faltarem comodidades, ou até mesmo só essencialidades, o que não considero justo – de justeza – num escritor, mas compreendo), ali a enfrentar a memória e outras coisas piores.

No entanto, viver assim (ser e escrever assim) não é nada que possa eternizar-se. A realidade paralela que isso é afasta os escritores de todo o princípio do real, e por vezes sucumbem, desaparecendo precocemente. Se tivessem maneira de alternar entre isso e períodos menos intensos – em que pudessem, por exemplo, investigar, ler, projectar na cabeça –, podendo, também, simplesmente conviver (coexistir) com os outros, contra quem habitualmente escrevem, talvez os seus livros contivessem mais do que sofrimento, podendo ademais ser também a superação desse inferno existencial de que por vezes não regressam.

Há muitos anos, o já desaparecido poeta e tradutor Vasco Graça Moura (cujo legado muito considero) escreveu contra o então existente programa público de apoio à criação literária. Defendia Graça Moura que o trabalho dos escritores não deveria ser financiado, por perigo de afastá-los daquilo que considerava ser uma condição sine qua non para a literatura: um certo sofrimento, também sob a forma de privação material, pois, segundo declarava, só ela podia assegurar uma certa qualidade da escrita. Lamentei essas suas declarações, também no que revelavam do seu desconhecimento da vivência concreta de tantos escritores seus contemporâneos – gente nascida sem património, e cuja vida raramente lhes dá a oportunidade ou a capacidade para o gerar no tempo conturbado das suas existências.

Conheço, também, escritores a quem nada falta a não ser o desejo inadiável da aventura literária, ou então a coragem para a viverem na plenitude do que isso significa. Querem escrever, escrevem bem, têm coisas para contar, têm Mundo, têm tempo, podem escolher ir escrever para lugares distantes (ou até mesmo exóticos – não que isso seja preciso, mas se for, podem ir), mas há qualquer coisa que não lhes acontece, a não ser por vezes o tédio, ou o temor de se lançarem nalguma coisa de que não possam voltar. Têm talvez medo do que podem escrever. Por um lado querem muito escrever isso, até para se verem livres do medo que lhes provoca (pois é isso que os artistas fazem: dizer a verdade que os outros não sabem ou a que não se atrevem). Mas por outro não querem nada. O medo paralisa-os.

Fazem planos, mas depois desfazem-nos e acabam por não fazer nada. Acontece-lhes, então, a insegurança e, amiúde, claro, a incerteza de serem escritores. Ficam sem saber o que fazer, à espera que algo externo a eles aconteça, como por exemplo o reconhecimento – isto é, o reconhecimento dos outros relativamente à sua condição. Alguém, algo, que lhes diga que é esse mesmo quem são e isso mesmo o que têm de fazer. Se tivessem maneira de poder contar com o interesse de editores (ofício que em Portugal está praticamente em extinção – falando de editores de literatura competentes para acompanhar e defender o trabalho dos escritores) pelo seu trabalho, ou de candidatar projectos de criação literária a júris com capacidade para ser esses “reconhecedores” dos seus bons planos literários, talvez as suas vidas fizessem mais sentido, pois seriam gastas no exercício desse ofício e dessa arte chamada literatura.

Conheço, por outro lado, escritores que, para ganharem a vida (como se não a tivessem ganho quando nasceram…), escrevem coisas que não são literatura. Conseguem, desse modo, manter-se na escrita, fazendo dela o seu ofício e um ganha-pão (renda-de-casa, água, luz, etc.). Por vezes, é difícil, mas conseguem. Quando não têm trabalho, o que lhes acontece muitas vezes, escrevem o que lhes apetece. Sendo escritores, o que lhes apetece é a literatura. Nos mais poetas, há poemas que lhes nascem do nada e do tudo. Por vezes, acordam a meio da noite, ou a horas disparatadas da madrugada, para escrever umas linhas vindas directamente de um sonho. As mais das vezes, acontece-lhes ter de abandonar um poema para ir escrever outra coisa qualquer sem ponta de poesia. Respiram fundo e abandonam o poema. Por vezes não voltam a pegar nele.

Se tivessem maneira de levar o poema (ou a prosa) até ao fim, podendo durante algum tempo dispor da liberdade de recusar outras escritas, talvez nalgum momento se vissem capazes de cessar toda essa escrita sem literatura (para a qual há outros escribas perfeitamente aptos), para se dedicarem, com merecido carácter de exclusividade, à única coisa que verdadeiramente lhes corresponde.

Tudo isto a propósito disto aqui. E também disto.

Anúncios

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: