PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Eles, os palhaços, a fazer de nós todos

mythos

 

São três a fazer de nós todos. Três a representar abstracções muito concretas, como por exemplo a espera, ou a lisonja, ou a glória, ou o triunfo, ou a fúria, ou o medo, ou a alegria, ou a pungência, ou a parvoíce, ou um fim de tudo, ou um recomeço, ou you name it – para falar numa das línguas em que falam esses três que fazem de nós todos. Uma língua que não tem ainda um nome – mas podia ser globish – e transporta o nosso tempo e tudo o que isso pode significar em palavras e outros fonemas comummente reconhecíveis por todos.

Há um conferencista cheio conferências gloriosas no estatuto (e sobretudo na representação da sua importância) que tira mitos de dentro de uma maleta (Fernando Jorge Lopes). Há uma directora de produção e de tudo cheia de responsabilidades directivas que de vez em quando descomprime à nossa frente (Bibi Gomes). E há um assistente descontraído que pisa riscos hierárquicos e outros com a audácia dos ignorantes e a ambição dos subalternos (Rui Cerveira).

Teatro sem texto, a cujo subtexto implícito basta ser sugerido. Em que o intenso trabalho do actor (do corpo e do espírito universais do actor a ser-nos) está ali todo à mostra para quem gosta de o ver a brilhar, na subtileza e na estridência, na representação do real comum em que habitam os mitos e na justeza do excesso que somos e pomos em tudo o que fazemos (em tudo o que existimos). Somos todos (ou fomos, à vez) conferencistas, directores de conferências e assistentes daqueles. Ali estamos nós, no espelho do teatro, a vermo-nos tão parvos – e por vezes tão cómicos.

Teatro para crianças? Certamente. Para as que o são hoje e para as que o foram ontem, para que não esqueçam o que por vezes o tempo parece ter apagado mas que está lá sempre. Como o mito, «o nada que é tudo/ (…) brilhante e mudo» (Fernando Pessoa sobre Ulisses).

Mythos, pelo Teatro Extremo, no Teatro-Estúdio António Assunção (Almada Velha). Com Bibi Gomes, Fernando Jorge Lopes e Rui Cerveira, dirigidos pelo belga Joseph Collard. Até 27 de Fevereiro.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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