PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Spin-doctoring versus jornalismo

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Orçamento de Estado para 2016. A desinformação continua, e tem por razão de ser a brutal pressão política que se joga nos media e na opinião pública que procuram formar. No grupo Impresa (Expresso, SIC, SIC-Notícias, etc.), na TVI, nos jornais O Diabo e Sol, também – e nestes últimos o grau de ficção atinge níveis próximos do jornal O Crime, com títulos que insistem em raciocínios que emanam de cabeças que ficaram em 1975 e imaginam que é preciso um novo 25 de Novembro. É completamente inaceitável a manipulação a que os jornalistas se prestam, cantando em coro com o discurso que já conhecemos: o que dominou os media desde o subp12688035_959512267467082_8629168199586924294_nrime, e muito especialmente entre 2011 e 2015, durante o Governo de Passos e Portas. Com uma ajuda dos deputados europeus do PSD e do CDS-PP.

Não deixa de ser irónico o facto de toda esta desinformação (contra-informação, também) acontecer nos dias da Sociedade da Informação. O Mundo sem jornalismo é assim:  tal como na Alemanha o cidadão-comum não conhece a “geringonça governamental portuguesa“, em Portugal o cidadão-comum não faz a mais pequena ideia de quem é Frauke Petry. Porquê? Porque não há jornalismo, só há agregadores de notícias (pagos ao click), infotainment (info-entrenimento) e propaganda. Estrela Serrano escreveu há dias sobre o spin-doctoring cozinhado pela Comissão Europeia para tentar desacreditar o primeiro orçamento de Estado do Governo de António Costa. Os métodos relevam da mais inacreditável manipulação do que pode ser a percepção geral das coisas: depois de dramatizar em off, a Comissão veio a terreiro desdramatizar em on. Um filme em que os jornalistas ficam necessariamente mal. Por ignorância, por omissão (omissão de jornalismo, imagine-se), por seguidismo.

Seria preciso enviar jornalistas portugueses à Alemanha, entrevistar Frauke Petry. E também que jornalistas alemães (e de outros países) viessem a Portugal perceber o que se passa no terreno e na cabeça de quem entende que a missão da política é agir sobre a realidade. Mas não, esses jornalistas estrangeiros parecem limitar-se a telefonar aos seus amigos portugueses e a reproduzir ideias que transportam um determinado posicionamento ideológico relativamente à representação da realidade. Não há alternativa, cantam todos em coro. Na SIC-Notícias é especialmente gritante, essa oratória. Tudo o que a SIC diz que apura parece ter por objectivo o de ajudar a deitar abaixo o Governo de António Costa. Começa à sexta à noite, quando o Expresso da Meia-Noite mostra os temas de capa do jornal Expresso do dia seguinte, e continua pela semana fora.

E penso em como era Portugal durante o Estado Novo. E nos processos do fascismo, quando os sistemas e subsistemas de poder chamavam a si o espírito do povo (política do espírito), através da utilização de uma linguagem que assegurava a manutenção, no tempo longo, de uma determinada percepção geral da realidade. E escolho fazer eco com Almada Negreiros, para como ele declarar que «é preciso criar a pátria portuguesa do século XX[I]», empreitada para a qual se necessita essencialmente de «homens e mulheres da [sua] época», capazes, também, de «insultar o perigo» e de se atirar «prà glória da aventura» que é defender e fazer defender na UE os direitos e anseios do povo português. E quem diz a pátria portuguesa, diz a Europa do século XXI.

Imagem: Ernesto de Sousa com Carlos Gentilhomem, 1971
Composição gráfica para o projecto Almada Um Nome de Guerra. Cartaz em serigrafia a partir de excertos do Ultimatum Futurista (1917) de José de Almada Negreiros.
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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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