PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Geringonça round #1

Geringonça de esquerda

Esquizofrenia. Na mesma semana em que Bruxelas envia uma vez mais a Lisboa os seus inspectores, os programas de resgate financeiro da troika são novamente dados como tendo constituído arriscadas experiências de engenharia financeira que não olharam a meios (bem o sabíamos já), e o rascunho orçamental do Estado português é considerado um atentado ao Pacto de Estabilidade (e crescimento…). Escrevo estabilidade e crescimento e o meu espírito ri-se dos eufemismos, pois para esse acordo ser cumprido e haver estabilidade e crescimento nalguns lugares, há países cujos povos são esmagados.

Ou seja, há pessoas a quem se retiraram direitos sociais com tal cegueira e violência (outras palavras para dizer ganância), que muito depressa se entrou no domínio da violação dos direitos humanos. Assim é quando se usam economias frágeis e democracias rudimentarmente desenvolvidas para jogar nos casinos globais da finança. Assim aconteceu com os portugueses (mas também com os gregos) desde a intervenção da troika, cujas consequências no médio e longo prazo ainda estão por conhecer.

Será esta a primeira grande prova de fogo da chamada “geringonça” de esquerda. Engenho político cuja viabilidade para a legislatura só agora pode ser verdadeiramente testada. Resta saber se o engenho aguenta aquele que é o seu mais relevante combate: o da defesa dos interesses do País na artificial e desigual união a prazo que hoje é a Europa. Ou se o engenho se escangalha por causa de lutas locais (para dizer nacionais) e outras esgrimas, por mais importantes que sejam.

É que realmente não há nada politicamente mais importante neste momento do que uma estratégia de aço (e não, não uma muralha…!) que salvaguarde em Bruxelas não apenas os interesses portugueses lato sensu, mas também os de uma ideia de Europa que faça minimamente sentido. 

Imagem: Grua da Lisnave, Almada
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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

2 comments on “Geringonça round #1

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