PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

“Quando se é bom, o dinheiro vem”

2016-01-24 16.56.21

Quando se é bom, o dinheiro vem” – ouvido num anúncio de um banco, julgo que dito por um irmão mais velho dando conselhos a uma irmã mais nova. A frase, que sentencia à pobreza (material e moral) a maior parte das pessoas, revela o lugar esplendoroso e totalmente absurdo do dinheiro no sistema de valores da nossa sociedade. Pois quanto maior é a desigualdade, parece certo que o dinheiro, cada vez menos distribuído, só virá a uns muito poucos que, ao contrário do que é sugerido no anúncio, não precisarão de ser bons, nem nada que se pareça. Bastar-lhes-á ser herdeiros do dinheiro (ou da sua representação patrimonial) de outros. É nesse ponto que estamos: na acumulação sequencial, que segue de geração em geração, inibindo a mobilidade social que a democracia deveria favorecer, sem que haja qualquer relação entre a quantidade de dinheiro acumulado e o mérito de tê-lo conseguido. São os famosos activos, que a crise financeira espoletada com o subprime (longe de estar sanada) tem vindo a afunilar, com consequências gravosas e duradouras para o desenvolvimento económico (e necessariamente social) das sociedades.

Pertencendo a maior parte das pessoas ao vasto e crescente grupo dos pobres ou parcamente remediados da Humanidade, parece evidente que ninguém verá vir o dinheiro, a não ser que se endivide junto da banca, lá está, e essa liquidez (ao custo do crédito) faça as vezes do dinheiro que se não tem, encenando um falso poder: o de poder comprar isto e aquilo, e também os outros (o seu tempo, ou know-how, ou respeito, ou atenção, ou gratidão). Poder supremo que se exerce muitas vezes segundo as mais duvidosas regras que ligam os muito poucos que dele dispõem em grandes quantidades aos que cada vez mais dele carecem para sobreviver. Mas a frase “Quando se é bom, o dinheiro vem” tem outras implicações, sendo porventura a mais grave a que leva os que jamais viram vir o dinheiro a duvidar não apenas das suas capacidades, como também das suas qualidades. Se o dinheiro não vem, é porque as pessoas não são suficientemente boas, pensarão decerto algumas. Isto é: que não apenas não são competentes nos seus ofícios, e/ou eficazes a gerir as suas vidas profissionais, como ainda por cima talvez nem sequer sejam boas pessoas, valorosos seres humanos.

É nisto que estamos. Na acumulação ou na privação, levando a que a vida das pessoas seja grandemente movida por um ou outro factor, ocupando desse modo a quase totalidade do espaço e do tempo de existir.

«Recuemos a um século atrás, à Belle Époque, por volta de 1900–1910. Em todos os países europeus, a concentração do capital era então ainda mais extrema do que é hoje. (…) Os 10% mais ricos detinham a quase-totalidade do património: a parte do decil superior atingia os 90%. Por isso, os 1% mais afortunados possuíam mais de 50% do total dos patrimónios. A parte do centil superior chegava mesmo a ultrapassar os 60% nalguns países especialmente desiguais, como o Reino Unido. Inversamente, os 40% do meio possuíam pouco mais de 5% do património nacional (entre 5% e 10% consoante os países), ou seja, pouco mais que os 50% mais pobres que, quanto a eles, detinham, como hoje, menos de 5%. Por outras palavras, não existia classe média, no sentido em que os 40% do meio eram quase tão pobres em património como os 50% mais pobres. A distribuição do capital envolvia uma imensa maioria de pessoas que não possuíam quase nada, e uma minoria que detinha a quase-totalidade dos activos. [Não devemos subestimar] a inovação histórica maior – e mais frágil – que constituiu a emergência de uma classe média patrimonial. (…) [Mas ela] apenas conseguiu lançar mão a umas migalhas: nunca mais de um terço do património na Europa e, na melhor das hipóteses, um quarto nos Estados Unidos. Este grupo central reúne uma população quatro vezes mais numerosa que o decil superior, e no entanto a massa patrimonial que detém é entre duas e três vezes menor. (…)» Thomas Piketty, O capital no século XXI (Temas&Debates, 2014).

 

Na imagem, a fachada do antigo Cinema Royal, na Rua da Graça, em Lisboa, hoje uma loja da cadeia de supermercados Pingo Doce
Anúncios

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 25 de Janeiro de 2016 by in Economia, Europa, Sociedade and tagged , , , , , , , , , .

Navegação

%d bloggers like this: