PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Crónica de uma eleição bem passada

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1 — Os vencedores

MARCELO II. Quando era novo sonhava-se delfim do primeiro. Lá conseguiu por uma unha negra, apesar da caldeirada que a esquerda arranjou para si própria. Embora tenha assegurado pouco mais de 25% dos eleitores inscritos, será mesmo o presidente de todos os portugueses. Depois de uma pavorosa campanha reality show, no fim conseguiu transformar o foguetório da vitória num surpreendente discurso de estado. Do mal o menos. O pior que nos pode acontecer é ele ser apenas um pouco melhor que o Emplastro Silva. Uma coisa é certa, sabe pentear, passajar e passar a ferro as suas próprias calças. Presidência poupada é presidência abençoada.

MARISA. A “candidata mais engraçadinha”, segundo o piropo claramente coimável do secretário-geral do PCP, não só segurou o eleitorado do seu partido, como reafirmou o Bloco no terceiro lugar do ranking nacional. O secretário-geral não gostou. Mesmo nada. Mas, como diz o nosso povo — ‘há mais quem goste.’

ANTÓNIO COSTA. Diz-se que ao primeiro-ministro convém mais um Marcelo que um Sampaio da Nóvoa. Marcelo pode ser muito pantomineiro, mas é um pantomineiro com o adequado sentido das conveniências. Até à reeleição manter-se-á um verdadeiro social-democrata. Depois, logo se vê. Mas isso é só daqui a cinco anos.

TINO DE RANS. Se este homem tivesse alguma coisa para vender, faria a partir daqui uma carreira de sucesso. Mas não, é apenas um calceteiro que intuiu nos portugueses o apetite pelo frisson dos reality shows e resolveu divertir-se que nem um cabinda. Marcelo fez praticamente o mesmo, mas esse tinha um objectivo maior. Afinal, a democracia também tem que ser lúdica. Sem o riso para nos salvar, sentíamo-nos a viver numa ‘república’ islâmica.

2 — Os vencidos

SAMPAIO DA NÓVOA. As feridas da guerra Costa-Seguro ainda não tinham cicatrizado e o apoio ao candidato do tempo-novo gerou mais uma balcanização no PS. Não soube evitar a confusão que se seguiu. Apesar de intelectualmente bem preparado, ao ex-reitor faltou-lhe o conhecimento que contava — o conhecimento da política. Ainda assim, superou o milhão de votos e, ao contrário de outros poetas, teve a elegância de prometer não fazer nada com eles. Mas não parece, mesmo nada, que a sua candidatura sirva para demonstrar qualquer putativa virtude da cidadania apartidária. Tal como a reitoria tem que ser comandada por um catedrático experiente, a presidência destina-se a um político calejado. E, até ver, é nos partidos que se formam os políticos, não nas universidades.

MARIA DE BELÉM. Nem vale a pena bater mais no ceguinho. Chega a meter dó, o pior que pode acontecer a um político com 40 anos de serviço público. Pior ainda são as contas da campanha. Talvez possa fazer uns anúncios tipo Simone de Oliveira. Ou saltar de lar em lar para anunciar o milagre do cálcio contra a osteoporose. Afinal, já foi ministra da pasta e, se a sua consultadoria valia para a Espírito Santo Saúde, muito mais valerá para a Bliss Natura.

JERÓNIMO DE SOUSA. O candidato do comité central não esteve à altura do derby. Acontece aos melhores, que o diga Jorge Nuno Pinto da Costa. A propósito do Porto, Edgar Silva teve neste distrito, onde até costuma meter deputados, bem menos de metade dos votos que o estonteante Tino de Rans. Já a nível nacional, se não fosse a claque da Margem Sul arriscava-se mesmo a perder a vantagem mínima de 0,6% para o candidato-calceteiro. Se recuarmos e compararmos com a últimas presidenciais, Edgar Silva conseguiu ainda menos votos nacionais que o seu conterrâneo Zé Manel Coelho, em 2011. O jogo correu tão mal, tão mal, que quase foi pior que o Benfica perder em casa contra o Sporting por três a zero. Perante os lenços brancos da assistência, o secretário-geral aproveitou a flash interview para se queixar do favorecimento da arbitragem popular a favor do seu adversário mais directo: “Podíamos arranjar uma candidata mais engraçadinha e com um discurso mais populista”, mas “não somos capazes de mudar. Fazemos sempre a mesma opção por uma forma séria de fazer política”. A sério?

3 — Os coisos

O médico-de-Leiria, o senhor-corrupção, o empresário-precognitivo e o motivador-empreendedor. Todos juntos não dão para fazer uma peregrinação como deve ser ao leitão da Bairrada. A exemplo do saudoso Garcia Pereira, provavelmente só o último terá conseguido projectar o seu nome como marca profissional. Deve-se-lhe a melhor declaração de derrota na noite dos votos:

“Comecei do zero, se tiver 0,3% já é uma grande subida.”

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This entry was posted on 25 de Janeiro de 2016 by in Política nacional and tagged , , .

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