PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

João Chaves Santos (1929-2016)

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Desapareceu hoje João Chaves Santos, meu professor de música e director do antigo coro do Liceu D. Pedro V. Guardarei para sempre na minha memória e no meu coração o que ele foi para mim: um professor excepcional, que me ensinou muito mais que música.

Eu tinha 15 anos e não entendia a História dos homens, a da representação do Mundo, nada disso eu entendia, incapaz de unir os momentos do tempo, incapaz de compreender o curso da História, o que movia o engenho humano, o que determinava as derrotas e as conquistas dos grandes ideais. A vida era a minha vida, começava nos anos 60, desejava o ano 2000, negava o fim do Mundo, seguia em frente.

Foi com João Chaves Santos que descobri que a Música ia quase sempre à frente, que chegava antes, que todas as grandes correntes artísticas tinham nela a sua primeira expressão. A Música chegava antes do pensamento, era pioneira – e timoneira. O Barroco, o Classicismo, o Romantismo, o Modernismo, tinham na Música a sua génese.

Eu tinha 16 anos e, num ano, o Mundo tinha-se transformado num lugar que eu era capaz de minimamente interpretar, porque na minha escola havia um explicador: alguém que mostrava caminhos, que os abria a partir de uma clareira que ficava num anfiteatro onde se cantava. Essa sala cheia de vozes humanas, que hoje já não existe, vive na memória de todos aqueles que, como eu, apre(e)nderam o Mundo com João Chaves Santos. Chamávamos-lhe o Joãozinho da voz doce. Era pai do escultor Rui Chafes,

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 24 de Janeiro de 2016 by in Cultura, Obituário and tagged , , .

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