PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

História de fim-de semana: alentejanos e belgas

Hotel el Djazair, Argel

Hotel El Djazair, Argel

A determinado momento da minha carreira profissional, tive uma reunião com um administrador do ‘Pingo Doce’. Engenheiro de formação, revelou ser pessoa afável, informal e despretensiosa. A conversa entre nós iniciou-se por temas simples da vida. Da vida e das experiências que cada um de nós, opcional ou voluntariamente, enfrenta no dia-a-dia ou no emaranhado de eventos em que estamos envolvidos.

Sem que me lembre por que razão o afirmei, a certo momento, antes de abordarmos as questões programadas da reunião, disse-lhe:

– Sabe, os franceses, em relação aos belgas, têm o hábito de contar anedotas semelhantes àquelas que nós, portugueses, costumamos narrar sobre os alentejanos.

Reacção do meu interlocutor:

– Bingo! O meu pai é alentejano e a minha mãe é belga.

Confesso que fiquei muito atarantado, sem palavras. Senti ainda mais o peso da minha argolada, por se tratar de um encontro institucional com um cliente dos mais importantes da empresa que eu representava. Fiquei lívido. Valeu-me o espírito de bom humor e complacente do engenheiro, para retomarmos as conversações sobre os temas sérios da reunião.

Jamais lhe justifiquei – quis foi livrar-me do embaraço em que estava metido – mas, de facto, a minha opinião sobre a semelhança entre alentejanos e belgas havia sido inspirada num convívio que, anos antes, tinha tido no Hotel El Djazair, em Argel – El Djazair significa justamente Argel.

Durante alguns anos, deslocava-me a Argel, ao serviço de uma grande empresa portuguesa, infelizmente desmantelada por Cavaco Silva, Mira Amaral e António Carrapatoso, para a venda de milhares de toneladas de detergente ‘Isis’, marca do cliente. Três ou quatro vezes por mês, aí estava eu em Argel. Os meus concorrentes eram sempre os mesmos: franceses, espanhóis e um belga. Este último, de nome Vandezande, tornou-se no meu melhor companheiro dessas aventuras exportadoras em terras argelinas; bem-sucedidas acentue-se.

À noite, depois do jantar, convivíamos no bar do ‘El Djazair’. Num dos múltiplos serões, de um grupo de cinco que bebíamos cafés e digestivos, três franceses, atacados por um ‘chauvinismo’ que lhes é tão natural que os próprios não controlam, foram implacáveis com o meu amigo belga, Vandezande.

Contaram mais de uma dezena de anedotas que, no mesmo jeito que por cá utilizamos para depreciar os alentejanos, se traduziram num processo de menorização, ou mesmo de humilhação, dos belgas.

Vandezande, um valão de Liège, ouviu serenamente, sem comentários ou sorrisos, todas as narrativas de gozo dos franceses. Em determinada ocasião, levantou-se da mesa e lançou-me directamente a seguinte pergunta:

– Savez-vous, Charles, pourquoi le coq est le symbole de la France ?

Naturalmente, respondi não e, então, de partida para dormir, Vandezande justificou:

– C’est le seul animal que chante sur la merde… bonne nuit!

Os franceses, tal como eu com o engenheiro do ‘Pingo Doce’, emudeceram e ficaram derreados. São episódios deste tipo e outros correntes do quotidiano que, com mais ou menos sentido, preenchem as nossas vidas.

Anúncios

About Carlos Fonseca

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 24 de Janeiro de 2016 by in Sociedade and tagged , , , , , .

Navegação

%d bloggers like this: