PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Guia prático para o uso do voto

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Sempre houve uma cáfila de pré-candidatos às presidenciais. Desta vez chegaram a ser dezasseis, fora os que juravam a pés juntos que não eram candidatos a nada, mas que as sondagens teimavam em meter ao barulho.

Dez conseguiram mesmo as 7.500 assinaturas validadas pelos pró-activos juízes do Tribunal Constitucional. Todos juram cumprir a Constituição. Dizem-se quase todos independentes. Nenhum se assumiu como candidato de direita, o que não deixa de ser muito curioso.

1 — Os concorrentes

MARCELO REBELO DE SOUSA. Uma fervorosa apoiante do cavaquistão segredou-lhe, carinhosamente, que era um pirilampo. Para o afastar da corrida presidencial, o líder do seu partido chegou mesmo a dizer que era um catavento. Fez de conta que não era com ele e avançou, orgulhosamente só. Convencido que já tinha a direita na bagageira, guinou tão depressa à esquerda que se arrisca a derrapar na curva da abstenção. E, nunca se sabe, com a instabilidade do El Niño até pode ser que chovam canivetes no dia das eleições.

SAMPAIO DA NÓVOA. Descobriu a política depois dos sessenta anos. Talvez por isso tenha revelado tão pouca codícia e se tenha resguardado nas tábuas daquele esotérico discurso do tempo-novo. Parece um homem sensato e mostra aprender com alguma rapidez a complicada arte da chiquelina. Mas é sempre difícil apostar num matador que nem sequer sabíamos que existia até ao Verão passado. Tem o apoio oficial do Livre, do MRPP e de três ex-presidentes vivos. Por algum lado tinha que começar.

MARIA DE BELÉM ROSEIRA. Ao contrário do candidato anterior, conhecem-se bem demais os seus 40 anos de serviço público. E o que recentemente se soube sobre as subvenções vitalícias não é muito abonatório do ‘carácter’ que a sua campanha nos afiança possuir em caixa alta. Aconteça o que acontecer, fica a ideia que aceitou representar o PS cavaquista para se vingar de António Costa, que em bom tempo a depôs da presidência do PS. Fica no ouvido o pregão de um feirante com uma pós-graduação em spoken word — “Aqui é que se come bem, está cá a Maria de Belém.”

2 — Os residentes

EDGAR SILVA. Mais um funcionário, portanto, com a incumbência de fazer prova de vida e assegurar os votos do partido nas últimas legislativas. Parece que não está a correr muito bem.

MARISA MATIAS. Tal como o Bloco nas legislativas, fez a melhor campanha eleitoral. O que, na verdade, também não era muito difícil. Infelizmente, as eleições a que se candidata são as presidenciais.

3 — Os dissidentes

CÂNDIDO FERREIRA. Tem cara de empresário bem sucedido de Leiria. Foi militante do PS e liderou a distrital. Nunca se percebeu porque abandonou o partido. Parece ter sido plantado por Marcelo, ou Maria de Belém, para lançar lama sobre a candidatura de Sampaio da Nóvoa, já que o seu único contributo foi o de ter posto em causa o currículo académico do candidato do tempo-novo.

HENRIQUE NETO. Nunca foi bem do PS. Chegou a ser deputado no tempo de Guterres, o que diz tudo sobre o seu ‘socialismo’. Ideologicamente, parece mais à direita que o candidato oficial do PSD e do CDS. Confunde a presidência com a governação e até diz umas coisas acertadas, mas isso também é capaz de fazer o encantador de pombas que pernoita num furgão abandonado numa rua esconsa do meu bairro. O refrão do seu hino de campanha é um grito de revolta monárquica numa campanha tendencialmente republicana — “foste rei a inovar”.

PAULO DE MORAIS. Militou no PSD mais de três décadas e até chegou a vice-presidente na câmara do Porto. Um dia teve uma epifania e intuiu que a corrupção é a mãe de todos os pecados. Também diz umas coisas acertadas, mas eu desconfio sempre de um gajo daquela idade sem um único cabelo branco para mostrar. O seu hino de campanha é uma pérola de poesia neo-clássica — “Vota Morais, que os tempos são tais e o tempo não é de ninguém.”

4 — Os contraentes

TINO DE RANS. Tecnicamente, Vitorino Silva podia estar na secção anterior, pois chegou a ser presidente da junta pelo PS, no tempo de Guterres, facto que também não abona por aí além a seu favor. É um cromo verdadeiramente simpático, mas permanecem sérias dúvidas que tenha sido capaz de ler a Constituição de fio a pavio. Por outro lado, promete acabar com o IVA das ‘festas populares’, o que é muito bem visto na óptica do utilizador. “Contra a máquina, marchar, marchar”, ficará para sempre no ouvido da História.

JORGE SEQUEIRA. É o candidato do salero minhoto. “Temos que barrer a soleira da nossa porta, temos que mudar”, diz ele. E leva a coisa tão a peito, que chega a mudar mais vezes de óculos que o próprio Manuel Luís Goucha. É difícil não gostar deste grande motivador da classe apartidária, que diz que os políticos “chegam à presidência na idade da reforma”, que o “Cavaco é uma jarra” e que “cada cidadão deve ser um cliente”. É praticamente impossível resistir a um candidato que promete a “felicidade interna bruta”. Como não tem nada a perder, o melhor que lhe pode acontecer é não ganhar. Ou, como repete o próprio sempre que pode, “se não é boi, é baca”.

5 — Os ausentes

GARCIA PEREIRA. A sua ausência quebra uma longa tradição operário-camponesa. Sem ele é todo um conceito de revolução permanente que se esvai nas malhas do dengxiaopismo. Receio que a afluência ao seu escritório de advogados se ressinta com esta inusitada falta de comparência.

MARINHO & PINTO. O maior embuste da política portuguesa desde o PRD do ex-presidente Eanes. Mostra bem as indiossincrasias da emigração. Ninguém quer regressar a um país onde é preciso trabalhar 40 horas semanais para ganhar um salário de merda. Parece que apoia Henrique Neto. É muito provável que o próprio não lhe agradeça.

SANTANA LOPES. Como sempre, estava mortinho por se chegar à frente. À medida que os anos vão passando, as hemorróidas não perdoam e é preciso manter-se permanentemente em bicos de pés. Ainda assim, soube desistir em tempo útil, o que demonstra que afinal não é tão parvo como por vezes chega a parecer.

ANTÓNIO GUTERRES. Adelino Maltez chamou-o “alto comissário dos subterfúgios”. Era o dom sebastião preferido por praticamente todos os dirigentes do seu antigo partido, o que mostra bem o saco de gatos em que se transformou o PS. Preferiu manter–se no exílio de New York e na corrida a secretário-geral da ONU. Mais um emigrante que não se resigna a ganhar o salário de merda dos políticos portugueses.

ANTÓNIO VITORINO. Era o segundo dom sebastião preferido por praticamente todos os dirigentes do seu actual partido. Ainda bem que a criatura nunca se chega à frente nem que a matem e prefere continuar de bem com deus e com o diabo. Vade retro.

RUI RIO. Meia direita sonhava com a sua candidatura, mas deixou-se enganar pelo maroto do Marcelo. O grande general Júlio, dito o César que nunca chegou realmente a ser, ficou na História por ter tido a ousadia de atravessar o Rubicão. Rui ainda não teve sequer tomates para atravessar o rio Douro. É difícil querer ser grande sem coragem para para pôr em cima da mesa. Mas ainda é novo. E a política, já se sabe, é gaja para dar mais voltas que os carrinhos de feira do Tino de Rans.

CANDIDATO VIEIRA. Voltou a anunciar que só desistiria se vencesse, mas tudo leva a crer que não se empenhou muito em reunir as assinaturas. E é pena, pois a sua agenda prometia, entre outras novidades, porno-ecologia para todos e um referendo à poligamia. Só a TSF o levou a sério e até lhe deu um divertido Templo de Antena. Aleluia.

AQUELA SENHORA DOS AÇORES que desistiu porque o temporal lhe levou as assinaturas. Até ver, foi a melhor rábula destas presidenciais. O candidato Vieira que se cuide.

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This entry was posted on 22 de Janeiro de 2016 by in Política nacional and tagged .

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