PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O Independente: muito mais que uma “máquina de triturar políticos” do PSD e do PS

einstein_o_independente_postal_natal_1990Para além de ter sido integrado por muitos jornalistas e colaboradores que de modo algum se posicionavam no campo ideológico da direita (facto que colaborou para um pluralismo saudável, apesar da existência – não há como negá-la – de uma linha editorial conservadora, embora contraditória, e também contradita por um até então inédito cosmopolitismo que se contrapunha ao mais comum e transversal provincianismo da sociedade e do jornalismo portugueses), O Independente foi, de facto, uma escola de jornalismo novo. Como não tinha havido nem voltou a haver desde então em Portugal.

Os jornalistas Filipe Santos Costa (Expresso) e Liliana Valente (Observador) fizeram um livro chamado O Independente – a máquina de triturar políticos (Matéria Prima, 2015). O livro, ao contrário do que possa pensar-se (e, sobretudo, do que o marketing sobre o objecto tem procurado fazer crer) foca-se numa pequeníssima parte de uma história bastante maior e mais relevante que isso. Não haveria nenhum problema nisso (no facto de terem os autores decidido focar-se num aspecto específico – o de um alegado “programa” político-partidário a que O Independente teria deliberadamente dado gás -, circunscrevendo-se às histórias de capa que deram que falar) se o conteúdo do livro fosse apresentado a quem não o conhece com um mínimo de honestidade. Não tem sucedido assim. E as recensões críticas que têm surgido não ajudam. Muito pelo contrário.

Li hoje mais um texto (aliás publicado no quinzenário JL Jornal de Letras, a 20 de Janeiro de 2016) que vai no sentido da utilização do livro de Filipe Santos Costa e Liliana Valente como arma de arremesso contra o fundador e director do jornal, Paulo Portas, e/ou os interesses que representou e/ou representa. O que considero, aliás, que mimetiza os aparentes objectivos da edição, para além dos evidentes e puramente comerciais, ilustrados, também, pelo timing do seu lançamento público: o momento da queda de Paulo Portas, na sequência da viragem à esquerda e da ascensão de uma maioria parlamentar que derrotou a coligação de direita e alterou radicalmente os modos da governação democrática em Portugal. Sendo certo que a PàF era uma parceria volúvel, em que Paulo Portas, imponderável timoneiro, pontuou mais que a conta do pequeno CDS-PP, com consideráveis perdas para a até então relativamente intocada zona densa de influência do PSD –  apesar das audazes histórias de capa de O Independente.

Embora relevando-se (e bem) para o início da recensão o facto de o livro não constituir um trabalho de fôlego, assente numa «abordagem histórica, económica e sociológica de um jornal (…) que fez data nos anais da imprensa nacional», e referindo-se um conjunto de «ausências», que o autor do texto adjectiva (e bem) como «desoladoras» («nada ou quase nada há de elementos fa[c]tuais no livro no que diz respeito à empresa editora do jornal (…) sobre o capital da empresa e as alterações em termos de ac[c]ionistas (…) sobre a arquite[c]tura da equipa de reda[c]ção e as mudanças operadas ao longo dos anos (…) sobre tiragens, assinaturas e vendas em banca (…) sobre [a composição do público-leitor] em termos geográficos, de classes etárias, de níveis de estudos ou de profissões»), comete-se desde logo o pecado da parcialidade e, necessariamente, da manipulação grosseira de um primeiro olhar sobre o livro. Bastará atentar no título: Um proje[c]to que ocultava outro.

Mas o que mais ressalta é o conjunto de afirmações ligeiras que pretendem caracterizar O Independente como tendo sido um jornal essencialmente «impregnado de uma ideologia petulante, conservadora e mesmo em vários aspe[c]tos rea[c]cionária (…), uma máquina de guerra de um feroz anti[-]cavaquismo de classe. E, de maneira mais geral, uma atroz “máquina de triturar políticos”». Um engenho diabólico, que teria sido não apenas deliberado e impiedoso, como também, e sobretudo, apenas isso. Isto é, como tendo sido O Independente um instrumento que se tivesse resumido a esse calculado programa de exercício terrorista de uma influência ideológica na sociedade portuguesa passível de favorecer o CDS-PP. Ou seja, um jornal que não tivesse tido quaisquer outras qualidades (para dizer propriedades) dignas de nota. Designadamente enquanto media «com uma marca forte em matéria de jornalismo no sentido próprio da palavra». Nada poderia ser mais falso e injusto.

O Independente foi um projecto que reuniu em torno dos seus principais fundadores (Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, associados ao investidor Miguel Paes do Amaral) várias equipas de gente muito diferente entre si,  tendo-se a composição da redacção alterado várias vezes, e desde logo nos primeiros tempos, com o advento de outros projectos que foram buscar jornalistas a’O Independente. Foi o caso do jornal Público ou da revista Kapa.

Mas, para além de ter sido integrado por muitos jornalistas e colaboradores que de modo algum se posicionavam no campo ideológico que é descrito (facto que colaborou para um pluralismo saudável, apesar da existência – não há como negá-la – de uma linha editorial conservadora, embora contraditória e também contradita por um até então inédito cosmopolitismo, que se contrapunha ao mais comum e transversal provincianismo da sociedade e do jornalismo portugueses), O Independente foi, de facto, uma escola de jornalismo novo. Como não tinha havido nem voltou a haver desde então em Portugal.

Jornalismo novo, sim, que contrastava (e muito) com o velho jornalismo da época. Jornalismo que dignificou a profissão (fazendo subir o valor dos salários então praticados, por exemplo), que a rejuvenesceu (tínhamos quase todos 25 anos na época) e que produziu leitores de jornais totalmente distintos do que então havia em Portugal. Bastará dizer que esses leitores (de tiragens que chegaram a ter um volume próximo das do Expresso, há que dizê-lo) esperavam a sexta-feira como antigamente as criadas de servir esperavam o domingo para ser livres de namorar: com um desejo imenso.

Várias vezes, nas noitadas de fecho, fui para a boca da máquina de imprimir o jornal, em Alcântara, e experimentei a gloriosa sensação de entrar de manhãzinha num café de Lisboa com um dos primeiros exemplares do jornal que todos queriam ler. No café, do empregado ao cliente sentado ao meu lado, toda a gente queria saber o que lá vinha. Esse desejo imenso não tinha apenas por razão de ser as histórias de capa e as parangonas coloridas, por vezes com trejeitos tablóides, há que reconhecê-lo. Não. Muitos desses leitores queriam ler as nossas reportagens (com ângulos e/ou sobre assuntos que tradicionalmente não interessavam os outros jornais), as nossas entrevistas (com ângulos e/ou com pessoas que tradicionalmente não interessavam os outros jornais), os nossos dossiers temáticos (preparados com as melhores ideias, que debatíamos em acaloradas reuniões de redacção que eram verdadeiros brainstormings criativos) e ficar a par do que tínhamos escrito (num Português como não se praticava nos outros jornais) sobre livros, música, pintura, banda desenhada, cinema, teatro, arquitectura, etc, etc, sabendo que, semana a semana, púnhamos tudo o que éramos e tínhamos n’O Independente: a nossa criatividade, o nosso desejo, a nossa alegria, a nossa curiosidade, as nossas melhores ideias, o nosso arrojo juvenil, também.

O que explica que tantos talentos tenham ali nascido ou por ali passado. De que são exemplos (entre artistas plásticos, escritores, críticos e outros especialistas em áreas específicas, e, necessariamente, jornalistas, numa mescla que espelha a diversidade geracional e de classe daquele caldeirão criativo) nomes como Jorge Colombo, winston_churchill_edição_comemorativa_10_anos_maio_1998Daniel Blaufuks, João Tabarra, Céu Guarda, Jorge Silva, Luís Coelho, Rui Henriques Coimbra, João Bénard da Costa, André Carrilho, Alice Geirinhas, António Sena, Carlos Morais José, Dóris Graça Dias, Edgar Pêra, Fernanda Fragateiro, Fernando Pinto do Amaral, João Fonte Santa, Francisco Sande e Castro, Inês Gonçalves, Francisco Camacho, Isabel Salema, Isilda Sanches, João Alfacinha da Silva (Alface), João Miguel Fernandes Jorge, João Miguel Figueiredo Silva, João Villalobos, Jorge Araújo, Jorge Molder, Jorge Pires, Júlio Pinto, Luís Mah, Luís Pedro Nunes, Pedro Loureiro, Luísa Costa Gomes, Manuel Graça Dias, Manuel Hermínio Monteiro, Inês Pedrosa, Luís Maio, Luís Pedro Cabral, Maria Filomena Mónica, Martim Avillez Figueiredo, Pedro Rolo Duarte, Rui Zink, João Gobern, Nuno Galopim, Pedro Boucherie Mendes, Paulo Anunciação, Mónica Bello, Rui Portulez, Rui Vieira Nery, Rui Henriques Coimbra, Maria Guiomar Lima, Graça Franco, Helena Lopes, para dizer uns muito poucos de uma vasta equipa que se foi decompondo até ter sido reduzida a quase nada – o que explica, de resto, o fim de O Independente.

Imagens: Postal de Natal de O Independente (1990) e capa da edição comemorativa dos 10 anos de O Independente (Maio de 1998)

Anúncios

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: