PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O fim do trabalho

O Fim do TrabalhoCom o livro “The End of Work”, publicado em finais de 1995 nos EUA, Jeremy Rifkin foi pioneiro na análise da evolução histórica e no prognóstico dos efeitos da automatização nos processos de trabalho. Do livro, existe uma versão em francês, “La Fin du Travail”, com prefácio de Michel Rocard, primeiro-ministro socialista de França de 1988 a 1991.

Rifkin descreve transformações efectivas no sector produtivo, agricultura e indústria, para sustentar a teoria da eliminação de postos de trabalho por via da automatização. Cita, por exemplo, a intensa mecanização na cultura do algodão que conduziu a uma transferência maciça de mão-de-obra do Sul dos EUA para as fábricas de automóveis em Chicago. Ironicamente, nestas fábricas, anos mais tarde, a robotização no processo produtivo, desencadeado a partir do Japão, levou igualmente à supressão de milhares de postos de trabalho.

Mais recentemente, o economista norte-americano abordou, na ‘Der Spiegel’, o problema do desemprego causado pela automatização na Europa, expressando, entre outros, os seguintes argumentos:

“Ninguém está a lidar com o real problema do emprego na Europa. Têm medo de ter uma conversa a sério. Esses postos de trabalho nunca vão voltar. O que se vai ouvir dos políticos é que os mesmos estão sendo externalizados (outsourced), estamos a perder os nossos empregos para os mercados de trabalho mais baratos.– seja na Europa Oriental, China ou em qualquer lugar. Terceirização (outsourcing) é o problema.

[…]

Terceirização (outsourcing) conta apenas cerca de 5 por cento ou menos dos trabalhos que estão a desaparecer. E os empregos estão a eliminar-se no mundo inteiro.–na Europa, na Ásia, na América do Sul e do Norte, em todos os lugares. Eles estão a desaparecer porque estamos a assistir uma grande mudança na natureza do trabalho e os políticos não querem falar sobre isso porque não sabem o que dizer. O facto é que vamos terminar o trabalho assalariado em massa…”

Jeremy Rifkin teve adversários, como o filósofo e político George Caffentzis, mas os argumentos deste e outros críticos foram demasiado frágeis, superficiais e longínquos da realidade das transformações nos processos produtivos que as sociedades do Mundo Global enfrentam. De resto, não é despiciendo que a Reuters tenha publicado a seguinte notícia:

Robôs, novos métodos de trabalho vão custar 5 milhões de empregos até 2020, diz estudo de Davos

Este estudo foi divulgado em Davos, na passada segunda-feira, dois dias antes do início do Fórum Económico Mundial, a grande assembleia dominada pela hipocrisia dos políticos e magnatas mais poderosos do mundo. Todos os anos, juram assumir o compromisso de solucionar causas humanitárias globais, de que a Oxfam e outras organizações são porta-vozes; todavia, no ano seguinte, continua a falar-se dos mesmos temas ou de outros de dramaticidade ampliada.

Regressando a quem estuda tão complexo problema, susceptível de vir a provocar graves convulsões sociais a um mundo já bastante conturbado, cite-se que, depois de Rifkin, surgiu Martin Ford com a obra: “Rise of the Robots: Technology and the Threat of a Jobless Future” [Incremento dos Robôs: Tecnologia e a Ameaça do Desemprego no Futuro – tradução minha].

Ford, num dos diversos textos de sua autoria, apela uma reflexão de considerável complexidade:

“Ninguém duvida que a tecnologia tem o poder de devastar indústrias inteiras e suplantar a diversos sectores do mercado de trabalho. Mas a ascensão dos robôs causa uma pergunta mais complicada: pode a tecnologia acelerar a quebra de todo o nosso sistema económico a um ponto em que uma reestruturação fundamental é necessária? […].

A perda colossal de postos de trabalho tem, de facto, consequências económicas e sociais devastadoras. A população activa decresce drasticamente, o mesmo sucedendo com os rendimentos e é tarefa ultra-ciclópica fazer funcionar qualquer mercado nestas condições.

O desenvolvimento tecnológico não vai estancar e os seus efeitos são, portanto, imparáveis. Há ainda outra questão filosófico-económica a debater. No processo de criação de valor, quem se apropria das mais-valias geradas pelos avançados meios de produção tecnológicos?

Seja da externalização para países de mão-de-obra barata, seja através de automatização do trabalho nos sectores primário, secundário e terciário, até aqui têm sido os multimilionários, do tipo Amancio Ortega da Zara, a retirar quase a totalidade do bolo, deixando migalhas aos beneficiários dos salários de milhões de miseráveis. No futuro, será sempre assim?

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