PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Debate político, insultos e jornalismo

Em Espanha, por estes dias, debate-se política. Política a sério. E quem tenta amesquinhar a discussão, rebaixando-a ao nível do insulto e do ataque pesoal, arrisca-se a sair borda fora. Veja-se este exemplo.

Em 2014, num programa da cadeia estatal LaSexta, debatia-se um dos problemas que mais tem afectado os espanhóis durante a última década, e que mais os tem mobilizado para a luta anti-sistema: os desalojamentos de famílias por dívidas à banca.

Ada Colau – então activista e porta-voz da Plataforma de Afectados pela Hipoteca e, desde 2015, presidente da Câmara de Barcelona, eleita pela coligação En Comú – argumentava com Alfonso Rojo, jornalista convidado para o debate. Este defendia que Espanha é o país da União Europeia onde há maior número de proprietários de casas. Ada Colau respondia que eram proprietários, mas enganados pelo sistema finaceiro e endividados. Alfonso Rojo diz que não conhece esse país de endividados. E então, Ada Colau, faz o comentário certeiro: «pergunta-se porquê, onde vive e com quem se relaciona».

Ora, isto não tem nada de ataque pessoal. É objectividade. Cada um de nós constrói a sua visão do mundo a partir das experiências que tem e das pessoas e grupos com quem se relaciona, de quem recebe informação e por quem é influenciado.

Por alguma razão, o jornalista terá visto ali um ataque pessoal e respondeu com uma tirada que mais parecia um daqueles comentários que gente desequilibrada e com necessidades de afirmação (ou profissionais do trolling, pagos por empresas e partidos – também existem…) costuma fazer nas “redes sociais” da internet e nas caixas de comentários de jornais.

Azar o dele: o moderador do debate não estava para aturar “peixeiradas” (sem ofensa…), até porque a coisa já tinha antecedentes (por exemplo neste debate com Pablo Iglésias). E, primeiro, pergunta-lhe com jeitinho se quer retractar-se. Depois, perante a insistência, pede-lhe, ainda com mais jeitinho, que desapareça.

Em Espanha, os dirigentes políticos das novas forças progressistas são assim, inteligentes. Não se inibem de chamar corruptos aos corruptos e criminosos aos criminosos – mas sabem deixar o insulto, o ataque pessoal, o amesquinhamento do debate e o discurso do ódio para os seus adversários políticos. Eles que se enterrem nesse lodo.

E isto é apenas um de muitos exemplos que se podem encontrar aqui mesmo ao lado. Nesse país que tem a quinta maior economia europeia, onde uma grande coligação de esquerda chegou aos 20% de votos nas últimas legislativas, onde os eleitores das maiores cidades (Madrid, Barcelona, Valencia) elegeram presidentes de Câmara progressistas, vindos do grande movimento popular de contestação às políticas neoliberais. E onde se debate política. Politica a sério.

Entretanto na Tugalândia…

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About António Vitorino

Escritor, editor do fanzine de poesia Debaixo do Bulcão poezine (desde 1996). Jornalista em diversos órgãos de comunicação social regional (desde 1992). Animador cultural no Centro Cultural de Almada durante a década de '80.

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This entry was posted on 21 de Janeiro de 2016 by in Jornalismo, Patrícula elementar, Política internacional, Sociedade and tagged , , , .

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