PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Como fazer mais abstencionistas

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(c) André da Loba

Aquilo a que chamaram um debate juntou ontem num estúdio da tevê pública 9 dos 10 candidatos à Presidência da República (Maria de Belém cancelou todas as suas prestações de campanha na sequência da morte de Almeida Santos). Formato novo e mais-não-sei-o-quê, dizia-se ontem a horas daquilo a que insistentemente chamaram um debate. No entanto, o que aconteceu ali ontem foi apenas um triste momento televisivo, que espelhou a pobreza do País em matéria de diálogo político. Não dei por ideia nenhuma que tivesse efectivamente sido debatida, não porque não tenham surgido vários temas de debate possível (e até mesmo necessário). Um deles, evocado por Marisa Matias, levou durante uns minutos para a emissão a questão dos privilégios dos políticos que o Tribunal Constitucional acabou de repor, para repúdio de todos os verdadeiros democratas e defensores dos direitos de igualdade. Mas não houve debate sobre o tema, apenas retórica de trazer por casa e fuga com o rabo à seringa.

Confesso que assim de repente não me ocorre mais nada. O resto foi lavagem de roupa velha suja, questiúnculas suscitadas por ataques pessoais desferidos durante a campanha, folclore televisivo alimentado por várias perguntas sem qualquer relevância para o debate político propriamente dito, e fuga para a frente dos candidatos, aproveitando o tempo de antena para repetir chavões de campanha em vez de responder às poucas questões suscitadas pelos pivots. O que explica que, talvez pela primeira vez, concorde com o comentador António José Teixeira quando, no rescaldo disso a que chamaram um debate, sugeriu que ele pudesse ter sido mais desmobilizador dos eleitores que outra coisa. Se é para isso, o melhor será ficarem quietos.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 20 de Janeiro de 2016 by in Patrícula elementar, Política nacional and tagged , , , .

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