PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Crimes contra a humanidade

pobres e ricosOntem iniciei o dia em desassossego. Tive de deslocar-me ao banco para uma operação simples. À minha frente, uma senhora, com aspecto de quarenta anos, de ar acanhado, entregava umas três ou quatro notas de 20 euros à empregada da caixa. Desfazia-se em desculpas. “Sabe, estou desempregada há quase quatro (4) anos”, dizia em tom audível e magoado. Logo acrescentou: “Esta falha só sucedeu, porque vivemos apenas do ordenado do meu marido e temos três (3) filhos adolescentes a estudar e começa a ficar difícil controlar e responder a todas despesas, a tempo”.

Afastei-me, mas a senhora falava alto, incontida pelo nervoso. Entretanto, de súbito, no lado oposto da sala, surgiu uma voz estridente. Era a da gerente que, ao telefone, advertia um cliente: “Pois é, o senhor está desempregado, mas em vez de estar a telefonar no dia do vencimento, deveria ter comparecido aqui antes para renegociarmos um programa diferente de amortizações…”. Nessa altura, acabei de ser atendido e fugi pela porta fora, esbaforido. “Que começo de dia!”, disse de mim para mim.

Cheguei a uma pastelaria próxima, pedi um café e lancei a mão ao DN da casa. Com o espectáculo mediático das Presidenciais 2016, perco pouco tempo. A excepção foi a coluna de Ferreira Fernandes sob o título: “Marcelo, o único com obra feita: ele próprio!”. Divinal!, penso. O que nos vale, no meio de todos infortúnios que nos colhem e perturbam, é ainda o estilo sarcástico de Ferreira Fernandes, o humor do MEC e de poucos mais.

Entrado em casa, lá tive de responder aos deveres familiares; neste caso, impostos pelo meu neto Francisco que, aos 2 anos, já condiciona e de que maneira a vida dos avós. Mas, diga-se, merece tudo, como é usual na relação de nós apertados e ternos que nos unem aos netos.

No começo da noite, quando inicio as minhas leituras e/ou me dedico à escrita, sou abalroado por uma notícia da Oxfam, uma confederação que actua à escala mundial para combater os crescentes e graves problemas da pobreza e da injustiça – Oxfam é acrónimo de Oxford Committee for Famine Relief (Comité de Oxford de Combate à Fome) e publicou este relatório, em cima do ultrajante Fórum Económico de Davos. Thomas Mann gostaria que aviltassem deste modo o cenário de ‘A Montanha Mágica’?

O ‘Expresso Diário’ descreve o essencial do relatório em causa, do qual destacamos os seguintes pontos:

  • 1% da população mundial já possui mais riqueza do que 99% dessa mesma população.
  • A riqueza dos 62 mais ricos do planeta é equivalente ao património de 3,5 mil milhões de pessoas, ou seja, metade da população mundial.
  • Metade dos citados 62 mais ricos estão nos EUA, 17 na Europa e os restantes espalham-se pela China, Brasil, México, Japão e Arábia Saudita.

A notícia do ‘Expresso’ prossegue na descrição daquilo que deve classificar-se como crime gravíssimo contra a humanidade. Diria que tal notícia é de leitura obrigatória, ou em alternativa, o relatório da Oxfam (inglês) com ‘link’ no final do parágrafo anterior.

Um dia assim estava predestinado para ser crescentemente mau até ao fim. Portanto, acabei por saber pelo DN, aqui, da vinda da ‘troika’ – na linguagem mais branda que me merecem, as alimárias da ‘troika’ aterrarão dentro de dias em Portugal, trazendo uma lista de 18 exigências ao Governo do País. Uma delas, imagine-se, é impor medidas para facilitar despedimentos, quando, em termos reais, temos, pelo menos, mais 50% do que os apregoados 12,4% do INE; i.e., um milhão de pessoas, cerca de 20% da população activa.

É revoltante que a superestrutura neoliberal, do FMI, CE e BCE, em conjunto com poderosos de outras frentes, continue a comandar este mundo, guardando o dinheiro dos ricos em paraísos fiscais a coberto do benefício da não tributação fiscal, e leve à pobreza, à miséria e mesmo à morte milhões de seres humanos, do Bangladesh à Europa, passando pelo México, pela América do Sul e África e até pelos próprios EUA, onde o sofrimento de pobres e miseráveis é considerável, em determinados acantonamentos urbanos. Igual situação se vive na China, uns poucos comunistas riquíssimos e mais de mil milhões a viver em situações de pesada dureza e de condições de vida muito precárias.

Quando difundido pela comunicação social em simultâneo com o anúncio da vinda da ‘troika’, toda esta complexa e desumana mistura se transforma numa quantidade de informação muito indigesta e causadora de enorme inquietação. Pergunto: então nada se faz para combater esta espécie de extermínio colectivo gradualmente executado segundo os interesses de seis dezenas de poderosos e a corte dos sabujos serventuários que os protegem? Pelos vistos, não se faz mesmo nada. Os sofredores continuam no limbo até à morte, transição que, aliás, corresponde à prática e à história da doutrina católica.

Anúncios

About Carlos Fonseca

One comment on “Crimes contra a humanidade

  1. Sarah Adamopoulos
    19 de Janeiro de 2016

    O genocídio pela privação

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: