PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O punho e a rosa

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A maioria dos consumidores talvez não saiba, mas o punho-erguido do Partido Socialista foi apenas fruto das circunstâncias. Mesmo depois do 25 de Abril, e apesar de o partido ter sido fundado há mais de um ano, pura e simplesmente ainda não existia. O PREC e a ‘guerra dos cartazes’ obrigavam a tomar decisões, comportamento proverbialmente difícil no PS ‘histórico’. Parece que um funcionário do partido, a meu ver com um enorme sentido de humor, escolheu para os primeiros cartazes aquele punho esquerdo sobre um fundo amarelo-e-vermelho e, tal como na clássica tradução do latim — ‘ite, missa est’.

É certo que o primeiro PS, não sendo propriamente marxista, era, pelo menos, claramente igualitarista. E anti-clerical. Há até quem diga que o símbolo teria tido origem no dos Makavenkos, clube de cavalheiros hedonistas, maçons, republicanos e socialistas, fundado em 1848 por Francisco Grandella e de que fizeram parte, entre outos, Bordalo Pinheiro e Miguel Bombarda. O que até faria algum sentido, tendo em conta as óbvias origens ideológicas — o PS inicial era claramente herdeiro do socialismo republicano do fim do século XIX. Porém, segundo me garantiram, é mais que improvável que o autor da proposta tenha tido em mente o punho dos Makavenkos.

Ora, quando um partido assim tão jacobino é assaltado por uma nova vaga, mais dada a missas e ladaínhas, havia que mudar de logo. À boa maneira, aliás, do Partido Trabalhista inglês ou do PSOE espanhol. Foi o que o bondoso engº Guterres tentou fazer, ao substituir o velho punho-esquerdo por uma rosa-terceira-via com ‘désainhe’ mais moderno, ali por meados dos anos 1990.

O velho PS torceu o nariz a este reposicionamento, como agora se diz, em marketês. Na verdade, excepto na extensão de marca JS, nunca a rosa apareceu sem o punho-erguido ao lado. E, com o refúgio intempestivo de Guterres em New York, o restyling foi mesmo caindo em desuso, tendo desaparecido completamente a partir o consulado socrático.

Pode parecer-vos assunto de lana caprina, este dos símbolos do PS. Mas olhem que não é bem assim. Basta lembrar que, até àquela ideia da rosinha-em-cor-de-rosa-encarnada, os militantes do PS eram conhecidos por ‘xuxas’. Agora, são conhecido por ‘rosas’. A meu ver, um claro downsizing da marca PS.

António José Seguro era um óbvio produto desta tentativa de transmutação do PS em rosa-cruz. Talvez já não se lembrem, mas este jovem foi líder da jota entre 1990-94. E ministro-adjunto de Guterres em 2001-02. Ou seja, mais um pequeno delfim. Sonso, canastrão, dissimulado, tudo o que em geral sempre me incomodou nos políticos mais dados a missas & ladaínhas que ao socialismo propriamente dito.

O mesmo aconteceu com a então presidente do partido e hoje candidata presidencial Maria de Belém Roseira. Trazida para a ribalta por Guterres, não admira vê-la acompanhada por Jorge Coelho, Vera Jardim, Vitalino Canas, Marçal Grilo ou mesmo pelo Vítor Melícias das misericórdias, tudo lídimos representantes da “tralha guterrista”, como um dia muito bem lhe chamou o jornalista Vicente Jorge Silva.

Maria de Belém não é bem uma candidata. É muito mais um subproduto desse PS da terceira-via, que se empenhou em aprofundar o esquema agiota do cavaquismo e que, durante duas décadas, se deixou placidamente confundir com o centro-direita do PSD.

Desesperado com a possibilidade de aparecer, ganhante, um candidato demasiado de esquerda, como Sampaio da Nóvoa, o PS da rosa inventou à pressa esta maria cheia de laca, oca e colorida como uma cabaça de feira, capaz de encantar plateias com o seu sorriso de barbie e, sobretudo, pronta para a vingança por ter sido apeada do vistoso cargo de presidente do partido.

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Sem outras promessas na carteira que o regresso aos anteontens que felizmente já não cantam, não admira que tenha despudoradamente roubado a Obama o símbolo da sua candidatura. Guterres havia feito o mesmo à Volkswagen, apropriando-se do slogan RAZÃO E CORAÇÃO. Belém, naturalmente, não podia fazer a coisa por menos e, em vez de roubar aos alemães, subiu um degrauzinho e foi roubar aos americanos.

Tem-se irritado com os jornalistas quando lhe lembram que, depois de ter sido ministra da saúde, acumulou o cargo de deputada com o de consultora da Espírito Santo Saúde. Assegurar-nos, esganiçadamente, que a lei lhe permitia não ter exclusividade e que as suas decisões foram sempre “tomadas em consciência”, é sobejamente revelador da santa hipocrisia que vai naquela paupérrima alma.

Não admira que os seus publicitários tenham sentido necessidade de a posicionar como uma mulher de CARÁCTER. E logo com cê, à antiga, ao arrepio do Aborto Ortográfico oficialmente em vigor. É o truque clássico do bom publicitário — transformar as fraquezas da marca em vantagens da comunicação e disfarçar a velhice do produto com a novidade da embalagem.

O problema é que, faça o que fizer, diga o que disser, tem um nome que não engana — Maria de Belém ROSEIRA. O que, à falta de melhor argumento, logo provaria a sua filiação no partido da rosa, nunca no partido do punho.

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One comment on “O punho e a rosa

  1. adelinoferreira45
    19 de Janeiro de 2016

    Muito bom.

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This entry was posted on 18 de Janeiro de 2016 by in Voyeur and tagged , , , .

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