PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

A saca de culpas

alice_geirinhas
(c) Alice Geirinhas

O caixa do supermercado, um funcionário ainda jovem, extremamente simpático, repete desculpas a torto e a direito. Pede desculpa aos clientes por pedir o cartão de descontos. Pede desculpa por perguntar se os clientes desejam um saco. Pede desculpa por dizer quanto é a conta e, se porventura há algum problema (com a conta, com os descontos, com o saco), redobra-se em desculpas. Penso então na enorme saca que o funcionário carrega, a rebentar de culpas caseiras, co-sanguíneas, amnésicas, e sobretudo pesadas. E imagino-o a caminhar arrastando todo esse remorso pela vida fora, por fim já todo curvado e cheio de problemas de costas. À imagem e semelhança de tantos outros portugueses que também vejo passar por aí, com quem me cruzo, e quem acabo por ser, apenas por sabê-los existentes, somente por vê-los nessa sobrevivência culpada, numa cadeia que não é estanque porque os nossos olhos se cruzam quando eles passam por mim nesses preparos existenciais. Passam pela rua pesados, mesmo quando caminham ainda com a agilidade da juventude. Como o caixa do supermercado, simpático e culpado. Tudo neles pesa, no olhar que baixam para ocultar tudo isso que no entanto vejo. Seria preciso libertá-los, mandar o conteúdo da saca de culpas para dentro de um contentor de lixos alheios, pois parece-me que todo esse carrego não lhes pertence, mas a outros que transportam no que são, ali a existir para os infernizar na memória inconsciente. Outros por vezes já desaparecidos, quem sabe esmagados pela saca de culpas de outros ainda. Seria preciso esvaziar esse conceptáculo de dores alheias e enchê-lo de desejo, de arrojo, e de alegria. Então, a saca transformar-se-ia numa capa poderosa de dançar o tango com a vida, e tudo seria diferente.
Bem sei que falar é fácil.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 18 de Janeiro de 2016 by in Maré, Patrícula elementar, Portugal imortal, Sociedade and tagged , , , , .

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