PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Portugal imortal – um país eterno? (2)

candidoferreira_1Tenho um amigo chamado Cândido Ferreira. Já não o vejo há muito tempo. É um grande actor (para dizer o que raríssimas vezes penso sobre os actores portugueses). Sensível, na contenção justa, jamais histriónico, um actor muito interessante. Se fosse encenadora, ou dirigisse uma companhia de teatro (em Portugal, regra geral, uma dupla condição), tenho a certeza de que o Cândido trabalharia comigo. Se ele quisesse, claro, ou pudesse. Sendo o enorme actor que é, o normal seria o Cândido não ter problemas de trabalho.

O actor que é merecia pertencer a uma companhia, receber um ordenado ao fim do mês todos os trinta dias, ser bem pago (isto é, bem tratado), fazer todos os grandes textos da dramatúrgia do Mundo, e não ter de andar a toda a hora a caminhar para as televisões, para fazer umas perninhas em telenovelas de histórias sem História, e textos que são proferidos para logo caírem no esquecimento perpétuo do saco das irrelevâncias do Universo. Julgo que o meu amigo actor Cândido Ferreira tem a vida dura (precária, sobrevivente, desrespeitada) da maioria dos actores em Portugal. Deve ser por isso que nunca o vejo. Ultimamente, sempre que aparece o candidato à Presidência da República Cândido Ferreira, lembro-me desse meu amigo seu homónimo, e penso no mundo de qualidades que visivelmente os separa. 

O que vos diz sobre quem é um homem que afirma de si próprio “que não costuma gabar-se mas que é extremamente generoso”? O que pensar quando, dias depois desse anúncio tão estranho, esse homem se chega à frente através dos media, não para lançar ideias novas para o debate político, mas para questionar uma licenciatura de um outro candidato – que não se chama Miguel Relvas, que tem dois (2) doutoramentos e que foi Reitor da Universidade de Lisboa? De facto, candidatos desta estirpe dCandido_Ferreiraão cabo do cidadão mais optimista e afastam-no da participação democrática. Pois o que desencobrem sobre a sociedade portuguesa é totalmente deprimente.

Revelam por exemplo que há nela homens que querem presidir à República mas que não são capazes de respeitar uma candidata sua concorrente, apenas por ela ser mais nova e atraente, como vi fazer a Jorge Sequeira relativamente a Marisa Matias, deliberadamente deturpando com alarvidade (é mesmo esta a palavra, desculpem-no a ele se puderem) o slogan de jorge_sequeira_02campanha da candidata pelo Bloco de Esquerda: Uma por todos. Em plena resolução legal contra os abusos de linguagem (refiro-me à – erradamente chamada – Lei do Piropo), ouvi Sequeira discorrer, com jeitos de piadista brejeiro, em torno da ideia de uma para todos. What?!

Já escrevi aqui sobre outros velhos – velhos por vezes da minha geração, se não mesmo mais novos. Cabeças velhas, onde moram – pagando rendas pequenas e eternas – ideias antigas e totalmente obsoletas que parecem ocupar a integralidade do espaço existencial das suas mentes. De tal forma que deixam de ser capazes de interpretar cabalmente a realidade. Como por exemplo Vera Jardim, apoiante de Maria de Belém, que diz que a Presidência está acima do Tempo. Ena. O que isto nos diz sobre como Jardim, Vera, concebe a PR, é mesmo deprimente, não é? Mas é também revelador do estado de negação em que se obstinam os velhos senhores do regime. Falava Jardim, Vera, a propósito daquilo a que chamou “a colagem de Nóvoa ao tempo novo”. Com colagem ou não, o tempo novo está aí, mas as cabeças velhas prosseguem em negação.

Imagino esses velhos reunidos à volta de uma fogueira. Essa fogueira é o debate político. Em vez de a alimentarem, e a fogueira crescer, sendo capaz de se ma2015-12-06 12.44.44nter viva e acesa durante o tempo que for preciso, os velhos cospem para a fogueira, e até há alguns que vertem águas para dentro dela. Por vezes chamuscam-se, mas não aprendem. Fustigado por todos esses ventinhos insidiosos que, aos poucos, o vão apagando, o debate político é em Portugal uma fraca fogueirinha a tremelicar, uma luzinha de 25 velas das antigas, ali a apagar-se constantemente, perante não apenas a indiferença mas sobretudo a capacidade de tantos para lhe lançar sopros destrutivos. Como o Lobo-mau na casa dos três porquinhos que um dia foi pelos ares.

Anúncios

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: