PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Portugal imortal – um país eterno?

Em Portugal, já se sabe: quase tudo é velho. Os edifícios, por vezes lindos, são de uma beleza totalmente distinta de velharias arquitectónicas de outros países. É uma beleza velha que transporta o abandono. Os edifícios, por vezes lindos e únicos (nunca vistos noutros lugares), já não são propriamente edifícios, mas apenas as fachadas de edifícios que existiram há muito tempo e que foram abandonados durante pelo menos outro tanto. As pessoas nascem, novas 2015-11-09 11.01.11pessoas, quero dizer, e algumas são arquitectas, e outras são presidentes de câmara, e outras têm profissões que as levam para junto desses edifícios, ou para próximo deles, nem que seja n2015-11-13 16.46.43o pensamento (no pensamento da política, por exemplo), mas não mexem nos edifícios. A burocracia e as disputas entre os herdeiros não deixam, dizem. E chega então o dia em que os edifícios são já só fachadas: uma casquinha frágil, um rosto que distantemente evoca uma dignidade já muito antiga, que por vezes as pessoas novas que passam nem conseguem imaginar. São a remanescência de uma memória material que o tempo, os elementos e o abandono um dia apagam para sempre. Por vezes há fotografias, bem sei. Mas o edifício, a própria coisa, desaparece. Quando as pessoas que conheceram o edifício desaparecem, tudo cessa de existir: o edifício e a memória dele. Em Portugal, é assim. 

Por que haveria de ser doutro modo na política? Por que é que num país onde quase tudo é velho haveria a política de ser nova? Por exemplo, Maria de Belém. Por que haveria Maria de Belém, que anda há tantas décadas na política (como a própria não cessa de nos recordar) de ser uma pessoa nova, isto é, uma pessoa com ideias novas, que pensasse coisas totalmente diferentes das que se pensavam no século XX, agindo em conformidade? Não faria sentido nenhum, não era? Do mesmo modo, não seria razoável esperar que Edgar Silva fosse diferente do que foi no seu tempo Francisco Lopes, esse desconhecido (até mesmo para os militantes do Partido Comunista) que uma campanha eleitoral resgatou brevemente ao anonimato na sociedade portuguesa. Edgar Silva não é biologicamente muito velho, mas tudo o que representa é velho. O seu mundo pertence ao século XX. O que defende morreu nesse século, mas Edgar Silva insiste: a Constituição, Abril. Tudo irrealizado, como as obras de preservação nos edifícios que são hoje só fachadas, e tornado irrealizável pela vitória de um materialismo sem dialéctica.

Mas mais velho ainda será Vitorino Silva, pois o que representa é em Portugal imortal: a tradição, a calçada portuguesa, a ruralidade, os valores sempiternos de uma sociedade cuja auto-representação incessantemente se recompõe à imagem do que foi há muito tempo, inibindo toda a modernidade. E também Paulo Morais2016-01-04 13.15.13, ex-vice-presidente pelo PSD na Câmara do Porto, representa velhos valores, apesar do verniz da luta anti-corrupção que dá um toque de novidade. Um novo-velho. Engravatado. Conservador. Feito homem no caldeirão do regime a que Cavaco apagará a luz daqui a dias. Sendo certo que os seus delfins continuam por aí. Aggiornados ao liberalismo económico e também eles velhos. Velhos da minha geração, como por exemplo Pedro Passos Coelho. Pessoas novas com ideias velhas, tão ou mais velhas que as dos senadores da Quadratura do Círculo, onde apenas Pacheco Pereira consegue por vezes ser novo ou, em todo o caso, visivelmente o único a saber que o mundo do século XX acabou e que o mundo do século XXI é ainda um esquisso. Um esboço nublado e defeituoso, a requerer pessoas novas, ideias jamais pensadas, arrojo, desejo. Pois ao contrário do que diz o senso-comum (na sua posição prudente e insuportavelmente conservadora), a cada dia que nasce está tudo por fazer. Um mundo decente e interessante para existir no século XXI, por exemplo, que é o bastante com que a gente se entreter até ao fim da aparição de cada um.

Anúncios

About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

One comment on “Portugal imortal – um país eterno?

  1. Pingback: Portugal imortal – um país eterno? (2) | Patrícula elementar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: