PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Crise global cíclica ou crónica? Temos as presidenciais!

crise económicaNeste cantinho, vivemos entretidos. Temos as presidenciais e as TV’s mostram, ao pormenor, os percursos dos candidatos ditos principais. Os outros têm direito a reportagens ligeiras e espaçadas no tempo.

Uns já foram à Madeira. Sinceramente ignoro se qualquer deles esteve nos Açores, mas o que é que isto me interessa? Sem escolha possível, os telejornais lá me mostram os tradicionais lugares e os rituais que, em campanhas eleitorais, se repetem: os beijinhos às senhoras das bancadas do mercado, os cumprimentos e mais beijocas a feirantes e visitantes, o ar condoído na visita a lares de idosos e hospitais – e nem as criancinhas das IPSS, abandonadas ou órfãs, lhes escapam… as crianças não votam, mas contam para o espectáculo.

Também temos o Ronaldo e futebol ao pequeno-almoço, ao almoço, ao lanche, ao jantar e à ceia – as TV’s fazem questão de não omitir um décimo de avo de bola. E aqui, recordo-me do Chico Buarque e de parte dos versos da canção ‘Meu Caro Amigo’:

“Meu caro amigo me perdoe, por favor

Se eu não lhe faço uma visita

Mas agora como apareceu um portador

Mando notícias nessa fita

Aqui na terra ‘tão jogando futebol

Tem muito samba, muito choro e rock-‘n’-roll

Uns dias chove, noutros bate sol

Mas o que quero é lhe dizer que a coisa aqui está preta

[…]”

Entrando agora no ritmo do Chico, reafirmo que “a coisa aqui está mesmo preta”.

A crise, eclodida em 2008 com o caso ‘Lehman Brothers’, transformou-se em pandemia. Primeiro nem a asséptica Islândia escapou, juntando-se-lhe em simultâneo as crises soberanas europeias; em especial em Portugal, Irlanda, Itália e Grécia, a quem apelidaram simpaticamente do grupo dos “PIIGS”, homófono de “PIGS”, ou seja, de “Porcos” – a Espanha, embora muito emporcalhada, fugiu da pocilga.

O BCE faz mil e um exercícios de acrobacia monetária e financeira, mas o Draghi continua frustrado pelo facto de a inflação na Zona Euro estar muito afastada dos cerca dos 2% / ano que pretende (em Dez-2015, o valor limitou-se a uns escassos 0,2%). Por sua vez, o esquema de financiamento à economia da Zona Euro pelo BCE (um ‘quantitative easing’ à europeia) também tem desconsolado Draghi e a sua equipa, na qual se conta o nosso Constâncio. O crescimento nos países do euro, assim como nos restantes da EU, tem sido ténue e, em certos casos, negativo – a Finlândia, país dessa espécie de “sudetas” da era moderna, está pelas ruas da amargura e até vai realizar um referendo dentro de algum tempo para saber se, maioritariamente, a população quer sair do euro; fala-se já no ‘Fixit’.

Países emergentes, África do Sul, Brasil e Rússia, estão sob uma crise económica e social acentuada – no Brasil, o que é inédito, haverá cidades onde o Carnaval não se comemorará, por falta de verbas. E para que nenhum dos “BRIC” se fique a rir dos outros, a China entrou numa fase de crise bolsista aguda, que tem reflexos colaterais e internacionais graves.

Em resumo, no seio da desgraça, os EUA, como é habitual, lá se vão desenvasilhando da complexa situação global que, em vez de cíclica, parece ter-se tornado crónica. Porém, em relação à dívida externa dos EUA, que é altíssima, as agências de ‘rating’ assobiam para o lado e o FMI, instalado em Washington, é que está subordinado ao poder norte-americano e não o inverso.

Da lista de países em dificuldades, se fossemos agora para os produtores de petróleo, de Angola à Arábia Saudita, teríamos de correr meio mundo. Fiquemos por aqui.

Por último, o RBS – Royal Bank of Scotland diz que 2016 será um ano “cataclísmico”, palavra dura e arrepiante. Claro que, como banco preocupado com os investidores, diz que estes correm o risco de não obter o retorno de capital (não são os juros) e recomenda que vendam tudo.

E quanto aos trabalhadores? Desses, o RBS não faz a menor citação. Todavia, sabemos que no sector da banca, em 2015, foram despedidos 100.000 trabalhadores na Europa. E em outros sectores? É muito complexo avisar nos mesmos moldes que o RBS fez aos investidores, quanto mais calcular.

Nós, portugueses, o melhor é distrairmo-nos com as presidenciais e com a florestação da 2.ª circular em Lisboa. Quem tem 2 milhões em risco de pobreza também aguenta mais 1 milhão – “ai aguenta, aguenta”, como dizia o idiota Ulrich há tempos.

Anúncios

About Carlos Fonseca

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: