PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Saia o Acácio, entre outro conselheiro!

KO a Cavaco SilvaSaia o Acácio!

Aníbal Cavaco Silva, na Presidência da República, remeteu-me, desde o primeiro mandato, para ‘O Primo Basílio’ de Eça de Queiroz (século XIX)., Os dez anos em Belém, a adicionar a quase igual período de tempo como PM, constituíram dura pena para quem, como cidadão, repudia a soberba e os topetes do falso infalível e verdadeiro oportunista.

Eça, na citada obra, concebeu uma figura, o Conselheiro Acácio. Distinguia-se através da conjugação da formalidade na pose e na fala com a trivialidade e os medíocres pensamentos políticos que expressava.

Se necessário, realizaria uma investigação e, ainda que limitada, reuniria um conjunto expressivo de actos e frases do presunçoso Cavaco, das vacuidades e dos assomos ridículos desse homem autoconsiderado sábio, tão realizado quanto frustrado. Talvez os seus sucessos políticos se restrinjam a alguns golpes baixos. Efectivamente, em certos casos extraiu proveitos pessoais. Basta citar o caso BPN, os elevados gastos da Presidência da República em período de austeridade severa para os cidadãos em geral; e ainda as numerosas e faustosas viagens que só tiveram paralelo com o Dr. Soares.

Se pretendesse descer ao mundo da excentricidade populista, lembraria o percurso do casal residente numa travessa em Lisboa, a do Possolo, em casa de duas marquises. De súbito, ele PR e ela primeira-dama incharam tanto que exigiram oito lugares de estacionamento privativos à porta. Tudo isto e o que mais se omite são comportamentos do puro estilo ‘acaciano’ que Eça criou e definiu primorosamente. Grande parte da obra do notável escritor do século XIX é, como se sabe, intemporal.

Bom, mas Cavaco está da abalada, como se diz no Alentejo. E eu satisfaço-me com um estridente grito: “Saia Acácio!”, sem receio de melindrar uma larga maioria de portugueses, de todos os partidos, credos, crenças, sotaques e clubes futebolísticos.

Reconheço, e assumo com convicção, ser, de facto, autoritário para um PR que, segundo sondagens do ‘Expresso’, termina o segundo mandato com acentuada popularidade negativa (- 12,9%); coisa, de resto, jamais vista em anteriores presidentes. Obtiveram sempre ´scores’ positivos.

Entre outro conselheiro!

Em relação ao futuro conselheiro a instalar-se no Palácio de Belém, é que as coisas se complicam para o meu lado. À partida, confronto-me com uma dezena, creio, de candidatos. Se fosse possível a fusão das melhores qualidades de todos eles num único pretendente ao cargo, nem seria necessário escolher. Agora dez é uma multidão, democrática mas multidão. Para cúmulo, embora republicano, só dois ex-presidentes me mobilizaram com facilidade e convicção: Ramalho Eanes e Jorge Sampaio. Votei também em Manuel Alegre.

Nas próximas eleições, por razões de íntima subjectividade e outras que devo calar, declaro não estar minimamente motivado para escolher alguém do lado A ou do B – duas variáveis que, segundo a lógica matemática, representam dois subconjuntos de cinco unidades cada. Não querendo enfileirar pela abstenção, depositarei o voto na urna.

Certamente pela idade, e sobretudo pelo peso excessivo de desilusões acumuladas pelo desempenho de políticos, se é verdade que as legislativas ainda me mobilizam para uma escolha ponderada, as presidenciais, depois da eleição de Cavaco por uma minoria de portugueses, mutilaram-me a motivação e o sentido de dever cívico que as normas político-sociais pretendem impor aos cidadãos.

Uma coisa é certa: seja quem for o eleito, teremos novo(a) conselheiro(a) em Belém. Com enorme probabilidade poderá não ser estulto, como o Acácio, em vias de abandonar o palácio. Todavia, e com o mínimo risco de falhar, prevejo que o vencedor seja, no exercício do altíssimo cargo, bastante astuto, acabando materialmente bem na vida.

Prevejo ainda que durante o mandato haja portugueses, mais de dois milhões, a continuar a viver em risco de pobreza; isto, segundo a nomenclatura da Comissão Europeia, por recusa em reconhecer a condição de pobreza e até de miséria efectivas, nas classificações estatísticas. Outros concidadãos formarão uma enorme amálgama, que terá no topo os generosamente beneficiados por uma sociedade gradual e profundamente mais desigual. Este será o País real, chame-se Acácio, Alzira, Alfredo, Almerinda ou qualquer outro nome, quem vier a sentar-se na poltrona do supremo conselheiro. É neste jogo que deixei de participar nas presidenciais, embora votando.

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