PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O vôo turbulento da privatização da TAP

avião_TAPDiz-se que, desde a descolagem, a privatização de uma maioria de 61% de capital da TAP se revelou num vôo complexo. Qual a causa das turbulências? O aparelho estava nas condições técnicas ideais e o tempo era excelente – o XIX Governo, de Passos e Portas ou da PàF que os pariu, fechou negócio em 12-Nov-2015, quando estava já demitido pela maioria da AR; i.e., duas semanas antes, dia 26-Nov-2015, do XX Governo de António Costa tomar posse.

Gente insolente, sem o menor sentido da ética republicana e democrática, nomeou para comandante do insensato negócio, o deslumbrante beirão e deslumbrado ajudante – versão cavaquista para secretário de Estado – Sérgio Monteiro. É um homem com o perfil de vendedor a baixo preço de  patrimónios do Estado, de que ANA e CTT constituem apenas dois exemplos. Segue-se o Novo Banco.

Trata-se da alienação da histórica transportadora aérea nacional, criada e desenvolvida com sucesso na afirmação do HUB (plataforma) de Lisboa; inigualável, na Europa, nas rotas para o ‘Hemisfério Sul’, direccionadas para destinos onde vive parcela considerável da diáspora portuguesa.

É reconhecido o valor estratégico da TAP em relação ao serviço aos portugueses dispersos pelo mundo, colocada habitualmente no topo das exportações nacionais. Também pode classificar-se de infra-estrutura dinâmica da afirmação de Lisboa em polo geográfico de trânsito de milhares de passageiros de outras nacionalidades, europeias em especial, a caminho de África e América do Sul. Nada disto, pelo que deixaram perceber os governantes do PSD e CDS, contou para reflectir, com bom senso, na desvantagem da operação lesiva dos interesses nacionais; dos quais, ironia das ironias, sempre se afirmaram acérrimos defensores. Afinal a bandeirinha portuguesa de Coelho & Cia. reduziu-se a um símbolo de hipocrisia decorativo de lapela.

Os governantes do Executivo cessante não estiveram sós na golpada da alienação do capital da TAP (61%) e na euforia de tal negócio. Cavaco Silva, a bordo de um avião da companhia a caminho da Bulgária, confessou sentir-se ‘aliviado’ – o parto parece ter sido difícil e de dores intensas. Marcelo Rebelo de Sousa, o tal que antes de ser já é PR, conselheiro de Estado cavaquista, expressou grande compreensão pelo alívio manifestado por Cavaco. A TAP, para ambos, jamais foi estratégica, mas um enorme estorvo.

Se interrogado sobre o tema, Marcelo, hoje, diria que é fundamental compreender as suas afirmações no contexto em que as expressou. E de contexto em contexto, lá vai marcel(t)ando uns portugueses que, pelos vistos, não são poucos. Povo manipulável e estranho, o nosso.

E quanto a parceiros e às condições da operação que o actual Governo quer alterar, para que o Estado fique com a maioria do capital (51%, penso)? Relembro apenas alguns aspectos:

  1. O risco da TAP não pagar aos bancos é da responsabilidade do Estado Português.
  2. Há dúvidas, ou mesmo insinuações públicas jamais desmentidas, sobre a propriedade da maioria do capital ser, de facto, do Sr. Pedrosa da Barraqueiro – com a conivência do administrador Pinto que fez um negócio desastroso para a TAP na compra de uma companhia de manutenção brasileira da ex-Varig, presume-se que o controlo da companhia e dos seus negócios ficou assegurado por David Neeleman, um norte-americano abrasileirado dono da companhia aérea Azul, no país irmão (nosso, não dele).
  3. A citada Azul, de David Neeleman, segundo a revista brasileira ‘Valor’, registou no 2.º trimestre deste ano prejuízos de R$ 329.200.000,00, o equivalente, ao câmbio actual, a cerca de 74,5 milhões de euros – não parece parceiro de confiança, portanto.
  4. Já depois do negócio fechado com o Governo de Coelho e Portas, perto de 20-Nov-2015, o grupo chinês HNA adquiriu uma participação de 23,7% do capital da Azul pelo montante de R$ 1,7 mil milhões de reais – esta operação reconfirma a falta de solidez financeira do grupo de David Neeleman para se associar ao Pedrosa da Barraqueiro e uma tendência de subordinação de empresas nacionais a interesses chineses; de resto, já estamos habituados através da EDP, Tranquilidade, Espírito Santo Saúde e outras sociedades.

Conclui-se, pois, que sob o desprezo neoliberal pelo património e centros de decisão nacionais, a que se associa o desdém pelo valor estratégico da TAP e da soberania do País, Coelho e Portas, ou Sérgio Monteiro com a aquiescência de Pires de Lima, fizeram um negócio com a tal Atlantic Gateway que, por declarações públicas, o questionável ‘businessman’ Neeleman dá entender que domina e na qual o Sr. Pedrosa da Barraqueiro parece ficar satisfeito com a possibilidade de criar uma nova carreira de autocarros entre o Aeroporto de Lisboa e Guerreiros (localidade próxima de Loures).

 

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