PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Presidenciais

Dos notáveis, falta deles ou da estratégia unipessoal. Os três candidatos presidenciais com melhores resultados nas sondagens adoptaram estratégias muito diferentes em relação a este aspecto.

Sampaio da Nóvoa optou por demonstrar publicamente todo o leque de apoios de personalidades públicas de que dispõe, Marcelo Rebelo de Sousa preferiu centrar toda a campanha em si, dispensando a partilha do palco seja com quem for, enquanto Maria de Belém ficou naquela terra de ninguém que resulta das circunstâncias… apoiam-na alguns dos tais que podemos chamar notáveis – quase em exclusivo na área do PS – mas são escassos e daqueles que não gostam de partilhar derrotas, pelo que nunca se chegam muito à frente. Não irei perder, por isso, prosa desnecessária com a chamada candidatura-empata, criada apenas para tentar impedir outrém de chegar mais longe.

Narcísico mas com a sua dose de intuição, Marcelo Rebelo de Sousa sabe que poucos serão os apoios que lhe acrescentarão alguma coisa, atendendo às décadas de exposição pública e mediática, pelo que concentrou tudo em si,a postando no seu fácil reconhecimento e num trajecto que, nos últimos anos, calculou quase todos os seus movimentos para um destino que lhe ficou depois de falhados muitos outros, intermédios. Politicamente, falhou quase todas as apostas políticas em nome próprio, enquanto viu terem sucesso muitos dos seus protegidos de outrora, seja os mais directos (Durão Barroso), seja os indirectos (Cavaco Silva). Fracassada a tentativa de ser autarca num município de primeira linha ou de chegar a primeiro-ministro, acabou por apostar tudo na lotaria presidencial interna e conseguiu condicionar todos os seus potenciais opositores, desde os que mais o afrontaram (Santana Lopes) aos de postura menos agressiva para com ele (Rui Rio). E fez um caminho progressivamente virado para o centro no último punhado de anos, conseguindo transmitir uma (quantas vezes apenas encenada) equidistância analítica que muitas vezes conseguiu, contudo, irritar muita gente da sua área política que percebeu que o seu plano pessoal não contemplava companheiros de estrada. A sua campanha é isso mesmo… um one man show bem oleado mas que tem as suas vulnerabilidades que nem sempre os adversários têm sabido explorar, por cortesia ou por se perderem no que eu já classifiquei como “pintelhices à catroga”. Há demasiadas coisas sumarentas no passado político de Marcelo Rebelo de Sousa, incoerências, inconsistências, erros, piruetas, para serem exploradas de forma séria para se andarem a desencantar cartas de 1973.

Já Sampaio da Nóvoa preferiu uma campanha que sublinha o seu papel de convergência de muitas personalidades da vida pública portuguesa, da política à cultura, da vida académica às artes. Por ser naturalmente essa a sua postura e/ou por ter consciência da sua menor notoriedade para o chamado eleitorado comum, Sampaio da Nóvoa decidiu partilhar o palco com muita gente e demonstrar que tem consigo apoios muito variados e que, de uma maneira ou outra, servem como uma espécie de referência para quem não o conhece muito bem. Se Soares e Sampaio serviram para apresentar credenciais perante o eleitorado do PS, já Eanes é alguém que congrega respeito e admiração num espectro político mais alargado e mais independente de fidelidades partidárias. A desvantagem desta estratégia é que, entre tanta gente, há sempre quem desperte animosidades aqui ou ali ou possa servir como exemplo para algumas sensibilidades apontarem e dizerem olha quem está com ele. Por isso, é importante que Sampaio da Nóvoa se comece a destacar mais por si mesmo, pelas suas evidentes qualidades, pela sua transparência, coerência e independência de grupos de interesses político-partidários. Que mostre a sua capacidade empática, a sua boa disposição, a sua lucidez e sensatez, tudo aquilo que o torna mais facilmente identificável com o tal eleitorado comum que deve vê-lo como individualidade em nome próprio e não como o candidato de. Aquilo que o torna um candidato natural à presidência, sem que isso resulte de um plano delineado a regra e esquadro ou de falhanços em outras encarnações políticas. Sampaio da Nóvoa tem um trajecto de sucesso pessoal e profissional, não precisando da caução de ninguém para merecer a confiança dos portugueses. As próximas semanas são essenciais para o demonstrar de forma cabal, no primeiro plano do combate político com Marcelo de Sousa, de igual para igual.

urna2

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About Paulo Guinote

Professor quando me deixam. Investigador quando posso.

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This entry was posted on 6 de Janeiro de 2016 by in Política nacional.

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