PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O professor, a doutora, o Vitorino, a Marisa e os outros todos

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(c) RTP/Antena 1

O jornalismo português vive dias que serão porventura os seus piores de sempre desde o fim da 5ª Divisão, já o escrevi várias vezes, como por exemplo aqui. Mas para além das práticas do que hoje pode caber na designação de spin doctoring, há vários outros problemas. Um deles tem a ver com a maneira como os jornalistas e pivots tratam a coisa política. Assim de repente, só me lembro de uma excepção: a jornalista Maria Flor Pedroso, cujo trabalho de cobertura dos temas políticos nacionais se distingue, pela isenção e excepcional preparação que denota. Numa sociedade democrática madura, em que o jornalismo tivesse um papel activo e liberto de pressões, o que surgem como excepções seriam apenas características normais, naturais ao próprio exercício da profissão.  Mas não é assim. A democracia portuguesa tem 40 anos, mas às vezes parece que tem 15.

Tenho procurado seguir as intervenções nos media dos diferentes candidatos à Presidência da República e tenho reparado numa coisa: os jornalistas e pivots não tratam os diferentes candidatos da mesma maneira. Há uma espécie de separação prévia de águas que considero totalmente inaceitável e que se exerce através da própria linguagem. Assim, o candidato Vitorino Silva (mais conhecido por Tino de Rans), por exemplo, é tratado pelos jornalistas como… Vitorino. Como se Tino de Rans não fosse candidato à Presidência da República nem estivesse num debate de ideias mas fosse um primo do pivot que estivesse ali por acaso, ou ilegitimamente. É que um jornalista profissional, quando no exercício do papel de entrevistador e/ou de moderador num debate, tem o dever de ser imparcial e isento de opinião própria, independentemente das características dos candidatos ou do grau de credibilidade das suas candidaturas.

Outro exemplo: a doutora Maria de Belém, que não é, que eu saiba, doutorada em coisa nenhuma, tem sido objecto de um tratamento preferencial por parte dos jornalistas e pivots que a têm entrevistado. Não estou a dizer que lhe dão mais tempo do que aos outros candidatos, não. Apenas que a tratam dirigindo-se a ela e à sua candidatura como vencedoras, fazendo da candidata uma espécie de natural born winner que os relevantes cargos que exerceu no passado certificariam. É claro que as muitas bandeirinhas do PS de Jorge Coelho ajudam.

O mesmo se passa com Marcelo Rebelo de Sousa, naturalmente, ou, melhor dizendo, nada naturalmente. Neste caso por outras razões, mas seguindo um mesmo princípio: o de um favoritismo que emana de uma grande mediatização prévia e de um estatuto social decorrente não apenas de um percurso académico mas também de experiências anteriores em funções de poder. Basta ver como Sampaio da Nóvoa é tratado. Se por um lado, entre todos os candidatos às Presidenciais, é ele o detentor de maior quantidade de pergaminhos em matéria de qualificações académicas, por outro, a sua insuficiente mediatização na sociedade portuguesa torna-o como se desconfiável. Já Marisa Matias (que é doutorada, já agora), tem sido tratada como se fosse uma vizinha do pivot, ou a rapariga giraça da pastelaria da esquina onde ele bebe café.

Na linguagem vai toda uma ideologia de sociedade, o seu fascismozinho enfiado no inconsciente colectivo, todos os seus complexos sociais, mas também opinião, manipulação, pensamento unívoco, “sondagens” antes do tempo delas. Vejo nisso, com desgosto, a recomposição do velho País português (revolucionado em 1974, é certo) que incessantemente reaparece como o velho lugar bafiento d’antanho: país desigual em tudo, em que o poder é uma prerrogativa de doutores, engenheiros e antigos governantes. Quanto mais antigos melhor. Assim, o tempo novo, com gente nova, de todas as idades e sobretudo de outras vidas e vivências – uma renovação que é absolutamente necessária à democracia em Portugal – levará tempo a efectivar-se na sua plenitude. Mas já era tempo, não era?

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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