PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O nosso parente mais próximo

Bonobos, Kokolopori, DRC
B.C.I.

Apresento-vos o nosso parente mais próximo: partilha connosco 98,7% dos seus genes. 

É um macaco, obviamente (um macaco como nós, diria o velho Desmond Morris). Mas um macaco pacífico, extremamente sociável e cooperativo, que vive em comunidades matriarcais onde não existe a guerra e onde as disputas não se resolvem com recurso a violência.

Parece bom demais para ser verdade?

Mas é verdade: existe mesmo e corresponde à descrição acima. Os seus comportamentos estão devidamente estudados e documentados. Apesar disso, a maior parte das pessoas ainda o desconhece.

Neste texto, apresento resumidamente este nosso “primo” e proponho uma reflexão sobre as razões para que seja, ainda, tão ignorado pela cultura popular e pela comunicação social mainstream.

Antes de mais, e porque este macaco tem um nome e uma história, apresento-o: chama-se bonobo. Vive em África, numa extensa região a sul do Rio Congo. Não se sabe ao certo qual a sua população em habitat natural, mas as estimativas apontam para 30 mil a 50 mil indivíduos, numa área de aproximadamente 500 mil quilómetros quadrados, na actual República Democrática do Congo.

Alguns jardins zoológicos também têm colónias de bonobos (embora, por razões que se entenderão adiante, exista ainda grande relutância em exibi-los). Guerras – entre humanos… – e caça têm ameaçado estes primatas (estão na lista de espécies em risco de extinção). Entretanto, há esforços concertados de comunidades locais e de instituições internacionais no sentido de preservar o seu habitat e salvar a espécie.

(De resto, as guerras e a delapidação de recursos naturais estão na origem de outro tipo de problemas que afectam populações humanas. Os povos “pigmeus” Batwa da África Central foram mesmo vítimas de um genocídio brutal que passou praticamente despercebido… e a que me hei-de referir noutra ocasião.)

A ciência conhece os bonobos há relativamente pouco tempo. A primeira referência de que há registo data de 1928, baseada na análise ao crânio do que, até então, se supunha ser um chimpanzé. Mas só em meados do século passado se começou a dar mais atenção a esta “nova” espécie. E só em 2011 ficou concluído o mapeamento do seu genoma – o que permitiu, então, verificar a enorme afinidade genética entre bonobos, chimpanzés e humanos.

(Perante tal afinidade há mesmo quem, na comunidade científica, proponha incluir bonobos e chimpanzés no género homo – ou seja: no nosso, o do homo sapiens – ou, pelo contrário, incluirmo-nos no género pan, o dos bonobos e chimpanzés.)

Bonobos e chimpanzés têm semelhanças físicas evidentes. Têm também afinidade genética entre eles maior – ainda maior! – do que a que existe entre qualquer dessas duas espécies e os humanos. (Diferem, e muito, é no comportamento. Já lá vamos…)

Supõe-se que o ramo de hominídios que deu origem à nossa espécie se terá separado de um antepassado comum há cerca de 4 milhões e meio de anos. Bonobos e chimpanzés terão permanecido a mesma espécie durante mais tempo e só se terão separado há 1 milhão de anos. Acredita-se que a especiação dos bonobos aconteceu por adaptação a um novo ambiente criado pelo aparecimento do Rio Congo, há aproximadamente 2 milhões de anos. Esse abundante curso de água constitui uma barreira natural – e os nossos primos primatas são péssimos nadadores, logo…

Na bacia a sul do Rio Congo, os bonobos foram encontrar um habitat mais favorável que o dos seus congéneres da outra margem. A nova espécie praticamente não tinha predadores naturais (exceptuando, talvez, os hominídeos – mas sublinho o “talvez”, porque não se sabe se existiam populações de hominídeos há 2 milhões de anos naquela região e se, no caso de existirem, caçavam aquela espécie).

Pelo contrário: os predadores são eles. Os bonobos têm uma dieta omnívora, principalmente vegetariana, mas caçam e comem outras espécies. E isto é um dado importante para entendermos e enquadrarmos o aparente “pacifismo” dos bonobos.

Caçam outras espécies, mas não se caçam entre eles. Não há registo de guerras entre bonobos, nem em cativeiro nem no seu habitat natural. São territoriais, como outras espécies de primatas. Mas, quando dois grupos se encontram nas fronteiras dos respectivos territórios, normalmente não se guerreiam.

O que fazem, então?

Bem, aqui dou a palavra ao primatólogo Frans de Waal, actualmente a maior autoridade mundial no assunto (chamando a atenção dos leitores mais sensíveis para as imagens eventualmente chocantes que se seguem):

«Grupos de bonobos em convívio pacífico foram observados pela primeira vez na década de 1980, quando diferentes comunidades reuniram-se na floresta de Wamba, na República Democrática do Congo, e ficaram juntas por toda uma semana antes de se dividirem novamente. Pode não parecer nada espectacular, mas o acontecimento foi tão estarrecedor quanto a violência entre facções de chimpanzés que haviam sido amigos em Gombe. Aquilo contrariou a persistente crença de que a nossa linhagem é naturalmente violenta.

Certa ocasião, assisti a um filme sobre a mistura de grupos no qual os bonobos primeiro se perseguiram ferozmente aos gritos, mas sem contacto físico. Aos poucos, fêmeas de grupos distintos puseram-se a praticar o GG-rubbing e até a fazer grooming umas nas outras. Enquanto isso, suas crias brincavam e se engalfinhavam com os da mesma faixa etária do outro grupo. Por fim, até machos dos campos opostos praticaram breves fricções escrotais.

Em mais de trinta encontros intergrupais em Wamba, membros do sexo oposto tipicamente se relacionaram com actos sexuais e amistosos. Por outro lado, os machos em geral mostraram-se hostis e arredios para com os machos do outro grupo. Cópulas entre machos e fêmeas de grupos distintos foram comuns durante os primeiros quinze minutos dos encontros.

Atitudes semelhantes foram observadas em outra área com bonobos, na floresta de Lomako. Machos de grupos distintos às vezes perseguiam-se freneticamente pela vegetação rasteira enquanto as fêmeas se penduravam nas árvores e gritavam. Os embates pareciam tão ferozes que os pesquisadores que assistiam se arrepiaram. Mas depois os bonobos saíam ilesos e os grupos misturavam-se. Começavam tensos e então se acomodavam, faziam sexo e grooming entre as duas comunidades. Só os machos de grupos distintos se abstinham de contacto amistoso.»

Para quem esteja a perguntar o que é GG-rubbing (tirem as crianças da sala): é, literalmente, fricção de genital com genital. E grooming é cuidar, acariciar, etc. Portanto, sim, quando se encontram em situações de tensão, com um conflito latente e prestes a explodir… os bonobos fazem “amor” (sexo, para dizer a verdade) e não guerra. E, desgraçadamente, essa é uma das razões para serem menos aceites em zoológicos. 

Este comportamento entre grupos de territórios diferentes parece ser a regra. Mas como toda a regra tem excepção, às vezes os bonobos chegam a vidas de facto. Os investigadores têm verificado escaramuças, raras. E, apesar disso, nunca uma única morte entre grupos rivais. Não havendo registo de guerra entre bonobos, existem, no entanto, situações documentadas de conflitos entre indivíduos do mesmo grupo: disputas “interpessoais” e até casos de “bullying”. Mas, também aí, a regra é resolver pacificamente (nem é preciso explicar como, pois não?) em vez de guerrear. Aparentemente, esta “paz social” entre bonobos resulta do facto de a sociedade ser matriarcal, dominada por fêmeas-alfa, e não por machos-alfa, como acontece com outros primatas…. E isso parece ser outra das razões para que, nas nossas sociedades altamente competitivas e ainda (ou cada vez mais?) cheias de estereotipos machistas, os bonobos sejam sistematicamente varridos para debaixo do tapete.

Resulta também, segundo alguns autores, de as tensões se manterem evidentes e não escondidas e serem prontamente resolvidas em vez de recalcadas (mais pano para mangas aqui…).

Como afirmei atrás, não haver guerras entre bonobos não faz deles criaturas apáticas e sistematicamente “bonzinhos” (e quando é que nos deixamos dessas simplificações?).

Mas é notória a diferença do que é considerado comportamento “normal” para um bonobo e para um chimpanzé. E é relevante, se tivermos em consideração a tal semelhança genética que existe entre as duas espécies e que é, como se disse, ainda maior entre elas do que entre cada uma delas e nós, humanos.

Aliás, mesmo a questão da agressividade dos chimpanzés está, normalmente, colocada de forma tendenciosa. Sim, os chimpanzés conseguem ser brutais. Sim, há registos disso. Mas mesmo os chimpanzés são, normalmente, mais cooperativos e pacíficos (dentro do seu grupo) do que agressivos. E também há registos disso. E não são valorizados. Porquê?

Vale a pena referir que, durante muito tempo, os próprios chimpanzés eram vistos como comunidades pacíficas e não guerreiras. Podemos argumentar -com uma certa razão – que cada época olha para a realidade com olhares diferentes e vê o que procura ver. Mas, de facto, durante muito tempo não havia registos de conflitos violentos entre chimpanzés. E não porque faltassem observações no terreno. Havia, muitas.

Jane Goodall, primatóloga e talvez ainda hoje a maior autoridade mundial no estudo dos chimpanzés (assim mal comparado, está para os chimpanzés como Frans de Waal para os bonobos – ou vice-versa), depois de anos a estudar a espécie no Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia, referia-se-lhes, na década de 1960, como animais afectivos, capazes de acções até então consideradas unicamente humanas, como beijar, abraçar, fazer cócegas (sim, fazer cócegas: contrariamente à crença popular, o homem não é o único animal que ri). Nunca como brutos, agressivos ou “guerreiros”.

Durante muito tempo, não havia, então, referências a comportamentos sistematicamente violentos por parte dos chimpanzés. Quando, finalmente, começaram a aparecer algumas evidências, a própria Jane Goodall as admitiu como válidas. (No entanto, há quem agora conteste a sua validade: aparentemente os chimpanzés observados naquele estudo só começaram a ser agressivos quando os cientistas começaram a dar-lhes alimento. De acordo com a nova teoria, terá sido, nesse caso específico, uma competição por recursos criada artificialmente por interferência humana.)

Há hoje, na comunidade científica, grande controvérsia sobre o significado das observações da violência entre chimpanzés. Não porque ela não exista e não seja, em alguns casos, particularmente brutal. Ninguém quer negar o que é evidente.

O que se questiona é a imagem, criada a partir da década de 1980 (cada época olha a realidade com olhares diferentes…) dos chimpanzés como animais sistematicamente violentos e competitivos. E como isso, supostamente, serviria para “justificar” comportamentos violentos entre a espécie humana, “naturalizando-os”.

É que, sabe-se hoje, mesmo entre as diferentes comunidades de chimpanzés o comportamento violento varia: verifica-se mais agressividade, em geral, nas comunidades do leste de África (por exemplo, na zona estudada por Jane Goodall) e menos nas da região ocidental (onde se encontram colónias também muito extensas).

Todos estes avanços no conhecimento científico e todos os debates que proporcionam ficam, porém, cada vez mais entre a própria comunidade científica. O público em geral desconhece-os. Não chegam aos meios de comunicação social, e muito menos à cultura popular. Quando chegam é apenas na forma de anedotas sensacionalistas tipo “um estudo provou que…” normalmente seguido de um texto disparatado, pouco rigoroso, feito para vender jornais ou cativar audiências e não para esclarecer. A informação é devorada e rapidamente esquecida.

Assim, no caso dos bonobos (e este texto é sobre eles, não é?), o que fica -se é que fica – é a imagem de um primata esquisito, hippie, promíscuo, engraçadinho, talvez mesmo fofinho (mas nada recomendável principalmente para os mais pequenitos) e que, por tudo isso, se calhar nem deve ser levado muito a sério. Já os chimpanzés, esses sim, continuam no imaginário popular (e no discurso dos media e mesmo, muito estranhamente, até em alguma literatura científica) a ser apresentados como “o nosso parente mais próximo”.

Porquê? E até quando?

Nota final… Quem leu até aqui, possivelmente estará a acusar-me de ser tendencioso. Porque, de forma mais ou menos dissimulada, tomei o partido dos bonobos contra o dos chimpanzés – logo à partida por lhes chamar “o nosso parente mais próximo”, quando são ambos os nossos parentes mais próximos. E porque, ao fazê-lo, tentei condicionar a leitura deste texto, puxando a brasa a uma sardinha em detrimento de outra.

E têm razão. É isso mesmo. Ainda bem que repararam.

Uma coisa são os dados científicos, outra a leitura que deles fazemos. A leitura é sempre uma questão cultural e ideológica (bem, as próprias metodologias usadas em algumas ciências são condicionadas por escolhas ideológicas, mas isso é assunto para outro artigo).

Admitido isso, refiro que a minha leitura é a de um homem identificado com valores de cooperação, solidariedade, paz… Valores tradicionalmente associados à esquerda.

Acho muito bem que se critique. Pensamento crítico é fundamental.

Espero, por outro lado, ver esse mesmo pensamento crítico aplicado a quem, conhecendo os mesmos factos e estando na posse da mesma informação, a distorça em favor de leituras ideológicas conotadas com os valores do individualismo, da agressão e da guerra.

Neste caso, a quem, sabendo que bonobos e chimpanzés são, de igual forma, os nossos parentes mais próximos, insistam em valorizar o supostamente “guerreiro” desvalorizando ou ignorando o supostamente “pacifista”.

Anúncios

About António Vitorino

Escritor, editor do fanzine de poesia Debaixo do Bulcão poezine (desde 1996). Jornalista em diversos órgãos de comunicação social regional (desde 1992). Animador cultural no Centro Cultural de Almada durante a década de '80.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 5 de Janeiro de 2016 by in Ciência, Linha de desmontagem, Sociedade and tagged , , .

Navegação

%d bloggers like this: