PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Do bullshit como uma das belas-artes

 

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“One of the most salient features of our culture is that there is so much bullshit. Everyone knows this. Each of us contributes his share.” [Harry G. Frankfurt]

 

Nas redes sociais circula um gif com uma frase de John Stewart nos tempos do Daily Show — BULLSHIT IS EVERYWHERE. Na vida pública em geral, no show biz em especial, no futebol, na finança, na cultura, na religião, na justiça, mas, muito particularmente, na publicidade. E, de forma ainda mais evidente, na política.

A publicidade comercial, sendo um concentrado de bullshit para todos os gostos e carteiras, ainda assim é regida por um ordenamento jurídico que, por definição, ninguém leva muito a sério, mas que pode trazer alguns dissabores aos infractores por publicidade enganosa e práticas comerciais desleais ou agressivas (cf. Código Publicidade, artº 11º; e DL 57/2008, artigos 4º a 13º).

Em contrapartida, na publicidade política, entre nós vulgarmente conhecida por propaganda, não há lei nem roque. Mal um ministro, um deputado, um autarca, um presidente da junta, um sindicalista ou um bastonário abre a boca, logo o pobre consumidor desconfia que é bullshit. No entanto, não pode fazer nada senão votar. E não refilar. Ou refilar não votando, o que, de um modo geral, equivale a entregar o ouro ao bandido.

Nos EUA ficou célebre a catch phrase de George Bush, pai, nas presidenciais nortamericanas de 1988 — READ MY LIPS, NO MORE TAXES. Tal como em 2011, com Passos Coelho, o consumidor acreditou. E votou. Depois, arrependeu-se. Mas não tinha provedor que lhe valesse. Pior que num mau serviço de comunicações, regra geral na política a fidelização dura quatro anos.

Aproximam-se as eleições presidenciais em Portugal. Entre todos, há um candidato que as sondagens, os jornais e as televisões não se cansam de destacar: Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa.

Como o brandy Constantino, Marcelo tem uma brand que vem de longe. Presença habitual nas televisões, é mesmo o único candidato cujo primeiro nome é top of mind em todas as classes de consumidores. Embora hoje se dê ares de perigoso social-democrata-quase-desquerda, tempos houve em que foi líder do PSD e de uma geringonça, em sociedade com o inimigo Paulo Portas, chamada Alternativa Democrática. É tão capaz de lançar a sua candidatura na Voz do Operário, como de confessar no dia seguinte, na Capela do Rato, que reza um terço todos os dias. Consegue ler e recomendar 20 livros por semana. Votar contra o Serviço Nacional de Saúde, enquanto deputado do PSD, e defendê-lo agora como um xuxa da era pré-guterrista. Vestir um impecável fato de três peças e, logo a seguir, arregaçar as mangas em arruadas, ou fazer-se garbosamente fotografar em desnudos calções de banho. Falar, com o mesmo arrebatamento, das vantagens competitivas do 4x4x2 no futebol de onze, do crescimento da agro-indústria do mirtilo em Sever do Vouga e das incongrências do FMI em relação à dívida pública dos países mediterrânicos. Já foi constitucionaleiro, banheiro, fogareiro, fiteiro, jornaleiro, paineleiro, alcoviteiro, pantomineiro, colhereiro, olheiro e até “cata-vento mediático de opiniões erráticas”, nas desassombradas palavras do ainda pequeno-grande líder do seu partido de quase-sempre.

Entres outras maravilhas de fragmentação pós-moderna, Marcelo consegue ter enviado cartas a Salazar e ao padrinho Marcelo, encomendando-se como “Vosso humilde servo”, e hoje fazer de conta que também andou nas lutas académicas do reviralho.

Marcelo consegue mesmo, e ao mesmo tempo, ser casado e divorciado. Não é fácil, mas eu passo a explicar. Tendo sido casado com a senhora dona Ana da Mota Veiga, veio a divorciar-se, civilmente, da referida senhora. Segundo as revistas da especialidade, tem namorado com a senhora dona Rita Cabral, nunca tendo voltado a casar porque, segundo ele, “ainda está casado aos olhos de Deus”.

Para além do problema protocolar que a situação fatalmente levantará, caso ganhe, há nesta rábula muito mais a dizer sobre outras questões, digamos, morais. Uma de duas. Ou Marcelo mantém apenas uma relação platónica com a actual namorada e cumpre, à risca, as leis da Santa Madre Igreja Católica Apostólica e Romana. Ou, ao arreganho destas leis que tanto diz respeitar, mantém na prática uma relação de concubinato more uxorio, como diziam os latinos. Pode argumentar-se que isso é apenas entre ele, Deus e as contas do seu rosário, mas não deixa de ser revelador da sua flexibilidade de carácter.

Seja como for, no dia 24 de Janeiro é muito bem capaz de ganhar as presidenciais. Porquê? Porque o bullshit ganha sempre. E, no que toca ao bullshit como uma das belas-artes, Marcelo é campeão. Dos campeões.

 

 

Créditos: Título, gentilmente rapiocado a Thomas de Quincy, DO ASSASSÍNIO COMO UMA DAS BELAS-ARTES, 1827, edição portuguesa Estampa, 1983 || Foto, Marcelo Rebelo de Sousa em pré-campanha na Festa do Avante, 2015 || Citação, Harry G. Frankfurt, in ON BULLSHIT, Raritan Quaterly Review, 1985; edição em livro da Princeton University Press, 2005; 20 anos depois de escrito, esteve 27 semanas na lista do New York Times Best Seller; onde se demonstra que, sobretudo no que toca ao negócio do bullshit, a embalagem é sempre o mais importante.

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2 comments on “Do bullshit como uma das belas-artes

  1. Carlos Fonseca
    4 de Janeiro de 2016

    De tanta qualidade, nem tenho palavras para atribuir uma classificação ao texto. Obrigado Xavier!

    Gostar

  2. Pingback: Do bullshit como uma das belas-artes | Sarah Adamopoulos

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This entry was posted on 3 de Janeiro de 2016 by in Voyeur and tagged , , .

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